O mestre do amor

Da última vez que nos vimos, assim que o abracei para me despedir, disse ao pé do seu ouvido: – Eu te amo! Nem me lembro como ele respondeu. A gente nunca sabe o dia seguinte, a curva ou a esquina no próximo caminho, então, de vez em quando, por precaução de livro de autoajuda, resolvo dizer às pessoas que quero bem o porquê disso. É como se me tirassem o filtro das habilidades sociais desejáveis e eu pudesse amar por pura necessidade humana. Era importante para mim que isso ficasse registrado. Era amor no sentido mais bonito que esse termo pode ter, um correlato de cuidado, carinho, admiração, afeto, respeito, gratidão. Ele seria para sempre um grande ser humano para mim, não pelos seus títulos, mas por tudo de mais humano que ele sempre transbordou, mesmo quando não queria. Eu achava interessante não saber muitas coisas sobre a sua intimidade, mas era tudo muito íntimo aquilo que nós vivíamos juntos há anos. Eu não precisava saber de detalhes.

Hoje, no mesmo lugar, o papo começou de outro modo. Não falamos das nossas mazelas profissionais de sempre. Era urgente falar de vida, sobretudo daquela que não acontece durante a jornada de trabalho. Hoje falaríamos apenas de amor. Dos que dão certo, dos que não duram, dos distantes, dos que ficam nas esquinas e que podem ser capturados por aplicativos com GPS, daqueles que estão começando a vida. Falamos do atípico, do abjeto, daquilo que não fica bem de escrever aqui – orgia, suruba, piroca, cuzinho. Falamos de roupas, de estética, de comportamentos sexuais, tudo aquilo que sempre perguntávamos para os nossos pacientes e sujeitos de pesquisa. Hoje estávamos mais à vontade como aqueles que podem fornecer os dados. Para uma pesquisa, para um texto qualquer, para um ensaio sobre a vida que se esvai e a gente nem nota.

Tudo isso aconteceu por que tinha dito que o amava? Não sei nada disso. Amar é também deixar o outro livre para, de repente, iniciar aquela conversa que nunca teve clima para acontecer. Pela primeira vez disse o quanto o achava bonito, o quanto ele estava diferente. Achei a camisa linda e fiz questão de comentar. Como ele estava melhor. Mais humano.

Vou guardar para sempre esse dia. Eu o amo ainda mais desde então.

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A seca rama

O amor que nunca acontece

Enfim, voltou

Junto dele

Nasceu a poesia

 

É como florinha

Que nasce perto do feijão:

Ainda que não seja de comer

A flor que brota vem cheia de ferro

 

Arrancar o feijãozinho

Também torna manca a flor que junto dele se firmou

É como se a flor-poesia

Só soubesse existir junto do feijão-amor

 

O vulnerável feijão, arrancado precocemente

Fez secar a florinha

Mas não há como matar um amor

Se não houver poesia

 

O amor que não nasceu

Fez ainda vingar um verso ou outro

Tão frágil feito a florinha

Mas que dá o de comer, feijão

 

Seca ou molhada

É Deus quem dá a palavra.

“Tendo a lua”

Costumo guardar muita coisa o ano todo. Papel, muito papel. E a derradeira faxina costuma vir mesmo agora, no fim do tempo regulamentar. Não tem nada de especial ou original em compreender o ano como o limite lógico das nossas ações, mágoas ou esperanças.

Passei boa parte desse ano esperando muita coisa, muita coisa que eu achava que não tinha acabado com o fim de 2016 ainda. Tentei te ver nas esquinas por aí, busquei seu carro nos estacionamentos, me arrumava todo dia para o caso de esbarrar contigo em meio à correria de sempre. Não deu tempo disso acontecer. Já se passou mais de um ano.

Hoje resolvi juntar tudo, “cartas e fotografias, gente que foi embora”, como diriam os Paralamas. É da nossa época, lembra? Abri uns cadernos velhos, tinha umas poesias endereçadas a você. Em outros tempos acho que eu copiaria os textos em outro caderno para não perder o registro, quem sabe um dia alguém leia? Ia guardar pelo menos os versos. Mas hoje foi diferente. Não me deu vontade de guardar poesia alguma. Olhei, reli. Reli meio que por cima. No fundo a gente precisa se perdoar por se dar tanto a alguém. Não é disso que se trata o amor. Amor é faxina. Amar é saber habitar uma casa limpa. Acordei querendo jogar água sanitária em tudo, inclusive na vida.

Voltei aos versos. Não deu saudade alguma de sofrer. E então rasguei todos. Não joguei nem no reciclável. Há coisas que não se pode recuperar. Como o tempo que se foi. O tempo em que fomos. Não vou tirar a bagunça e desarrumar de novo. O imóvel segue branco, agora com espaço. Nunca imaginei que fosse escrever isso. Mas a “casa fica bem melhor assim”.

O embarque

aero.jpgGosto de escrever em aeroporto. Talvez porque aqui eu tenha a certeza daquilo que não permanece. O que não é o nosso caso.
Seria muito clichê esperar que a moça do aeroporto anunciasse o seu nome: última chamada para o voo 9296? Última chamada! Eu então correria ao portão de embarque para te encontrar, certo de que não haveria qualquer coincidência.
É certo que você não embarcaria ao me rever ali, do nada, tal como nos deixamos um dia, sem olhar para trás, ou olhando para trás pelos entremeios das portas que não podiam mais abrir nada. Naquele dia de chuva eu olhei para trás. Talvez porque imaginasse que seria só um adeus breve, até que o sangue esfriasse. Não foi. Nada esfriou.
Já se vão oito meses de espera. Oito meses que seu nome é anunciado, em vão. A moça que anuncia os atrasos me pergunta se ainda quero insistir nessa chamada sem sentido. Peço-lhe que o chame, mais uma vez. Qualquer dia alguém fica com pena e atende em seu lugar.
Enquanto isso não acontece reclamo à ANAC, ao PROCON, à AZUL pelo dia cinza. Talvez alguém resolva o caso, algum dia, como quem de repente olha o telão e se surpreende com o embarque imediato.

Carrossel

carrosselEle trabalha perto do carrossel. Precisamente a sete passos. Não sei se dali do seu ângulo de visão pode contemplar as tantas cenas desta tarde de sábado.
Está quente, a terra está vermelha, chove abafamento e isso tudo aqui gira tão brilhante, tão simples, a despeito do que a vida às vezes teima em apagar e complicar.
São sorrisos das crianças, desconfortos dos pais que valsam, estáticos, ao lado desses cavalos congelados no melhor de si: estão perenemente saltando.
As luzes piscam, o carrossel não dá descanso, as luzes mudam de cor, tem uns querubins pintados no teto, hoje ele vai chegar com sono e eu também vou guardar o melhor de mim para ele. E ele fica lindo até de uniforme.
Tudo na mesma tarde de sábado, girando dentro de mim.

A festa das rosas vermelhas

santaritaEra festa de Santa Rita. As rosas vermelhas de Santa Rita. Uma centena de pessoas na pequena igreja, todos devotos fiéis à padroeira das causas impossíveis. Cada um com a sua rosa vermelha ou com seus ramalhetes. Compro uma medalha da santa, coloco-a no peito junto da de Nossa Senhora e da de São Bento. Reparo naquela multidão de rosas vermelhas e me lembro das giras de esquerda no terreiro. – Boa noite!, é saudação da mulher que gira. Salve a força da mulher que gira! Salve Santa Rita! Salve Obá! Salve a dona das rosas vermelhas, Santa Bárbara, como canta a Bethânia.
Minha mãe e eu não levamos rosas para serem abençoadas na missa de Santa Rita. Minha mãe só queria uma rosa. Vamos até o altar, fazemos cada qual o seu pedido. Disputamos a fila com devotos que agora não querem mais uma rosa, mas sim uma foto com a santa. Minha mãe pede ao homem que guarda o altar uma rosa vermelha. Ele diz que não pode tirar a rosa do altar. Me aborreço com esse homem que negou a rosa e até me confundo no que resolvera pedir.
Então tua imagem me vem à mente e me esqueço que este ano o pedido era da ordem profissional. Penso involuntariamente em você. Pergunto à santa se você está bem. Ela que tanto sofreu talvez entenda as coisas que sinto. Me penitencio e não consigo formular direito o que desejo. Não faz sentido incluir você no pedido. Saímos da igreja sem a rosa e eu sem o pedido.
Atravessamos a rua e um senhor desconhecido nos segue. Ele oferece uma rosa à minha mãe: – a senhora não queria uma rosa de santa Rita? Agradecemos ao homem, em uma alegria que, de repente, nos invade. Eu exclamo: – a senhora vai alcançar a graça! Fico feliz por minha mãe. Ela reza tanto, merece – penso eu.
Lembro da rosa vermelha de outrora, aquela que lhe dei no dia da nossa primeira briga. Das rosas vermelhas que não te trouxeram de volta. E mesmo sabendo que é impossível, não pedi você dessa vez.

Vontade que dá e passa

Bateu uma vontade monstra de chorar, assim, do nada, sem motivo aparente, sem culpados, sem vítimas, sem beliscão, sem dor de dente, de garganta, de ouvido, coluna, fratura, machucado, lesão, hematoma, contusão, abalo, traumatismo. Deu vontade de mandar tudo pros ares, num sentimento recorrente de danar-se todo, com todos e sem todos. Deu vontade de chorar, mas tem tanta coisa para entregar ainda hoje: provas, e-mails, reuniões, agendas, planos de trabalho, tanta coisa urgente e atrasada para ser respondida. Querem respostas. Todo mundo quer. Tanto afeto para ser entregue e nada escrito na agenda: entregue seu coração para o primeiro que passar.

Sinto que não dá para segurar muito, um mililitro de lágrima escorre, não sei bem certo como é essa medida e se dá mesmo para falar em porcentagens de dor e de choro, avaliar a quantidade de lágrima que escorre e correlacionar tudo com o tamanho do buraco na saúde mental que percebo desde muito tempo. Penso, comparo, delineio, talvez alguém se interesse por estudar essas coisas. Por viver isso ninguém se interessa. Peço ajuda para a amiga que está online e ela não titubeia, rápida com a dor: “Invente um exercício: chora um pouquinho, ri um pouquinho, 550 km”.

Olho em volta, talvez seja apenas o ventilador que ressecou a lente de contato. Vou ao banheiro, termino de chorar, coloco os óculos. Talvez uma lente mais grossa me impeça de fazer o pior e repetir a cena. Os clichês todos vão dizer: chore. E eu, querendo me diferenciar, vou dizer: segura, represe. Então fecho as comportas da dor que vinha brotando igual piracema na tromba d’água. Foi o ventila-dor.