Carrossel

carrosselEle trabalha perto do carrossel. Precisamente a sete passos. Não sei se dali do seu ângulo de visão pode contemplar as tantas cenas desta tarde de sábado.
Está quente, a terra está vermelha, chove abafamento e isso tudo aqui gira tão brilhante, tão simples, a despeito do que a vida às vezes teima em apagar e complicar.
São sorrisos das crianças, desconfortos dos pais que valsam, estáticos, ao lado desses cavalos congelados no melhor de si: estão perenemente saltando.
As luzes piscam, o carrossel não dá descanso, as luzes mudam de cor, tem uns querubins pintados no teto, hoje ele vai chegar com sono e eu também vou guardar o melhor de mim para ele. E ele fica lindo até de uniforme.
Tudo na mesma tarde de sábado, girando dentro de mim.

A festa das rosas vermelhas

santaritaEra festa de Santa Rita. As rosas vermelhas de Santa Rita. Uma centena de pessoas na pequena igreja, todos devotos fiéis à padroeira das causas impossíveis. Cada um com a sua rosa vermelha ou com seus ramalhetes. Compro uma medalha da santa, coloco-a no peito junto da de Nossa Senhora e da de São Bento. Reparo naquela multidão de rosas vermelhas e me lembro das giras de esquerda no terreiro. – Boa noite!, é saudação da mulher que gira. Salve a força da mulher que gira! Salve Santa Rita! Salve Obá! Salve a dona das rosas vermelhas, Santa Bárbara, como canta a Bethânia.
Minha mãe e eu não levamos rosas para serem abençoadas na missa de Santa Rita. Minha mãe só queria uma rosa. Vamos até o altar, fazemos cada qual o seu pedido. Disputamos a fila com devotos que agora não querem mais uma rosa, mas sim uma foto com a santa. Minha mãe pede ao homem que guarda o altar uma rosa vermelha. Ele diz que não pode tirar a rosa do altar. Me aborreço com esse homem que negou a rosa e até me confundo no que resolvera pedir.
Então tua imagem me vem à mente e me esqueço que este ano o pedido era da ordem profissional. Penso involuntariamente em você. Pergunto à santa se você está bem. Ela que tanto sofreu talvez entenda as coisas que sinto. Me penitencio e não consigo formular direito o que desejo. Não faz sentido incluir você no pedido. Saímos da igreja sem a rosa e eu sem o pedido.
Atravessamos a rua e um senhor desconhecido nos segue. Ele oferece uma rosa à minha mãe: – a senhora não queria uma rosa de santa Rita? Agradecemos ao homem, em uma alegria que, de repente, nos invade. Eu exclamo: – a senhora vai alcançar a graça! Fico feliz por minha mãe. Ela reza tanto, merece – penso eu.
Lembro da rosa vermelha de outrora, aquela que lhe dei no dia da nossa primeira briga. Das rosas vermelhas que não te trouxeram de volta. E mesmo sabendo que é impossível, não pedi você dessa vez.

Vontade que dá e passa

Bateu uma vontade monstra de chorar, assim, do nada, sem motivo aparente, sem culpados, sem vítimas, sem beliscão, sem dor de dente, de garganta, de ouvido, coluna, fratura, machucado, lesão, hematoma, contusão, abalo, traumatismo. Deu vontade de mandar tudo pros ares, num sentimento recorrente de danar-se todo, com todos e sem todos. Deu vontade de chorar, mas tem tanta coisa para entregar ainda hoje: provas, e-mails, reuniões, agendas, planos de trabalho, tanta coisa urgente e atrasada para ser respondida. Querem respostas. Todo mundo quer. Tanto afeto para ser entregue e nada escrito na agenda: entregue seu coração para o primeiro que passar.

Sinto que não dá para segurar muito, um mililitro de lágrima escorre, não sei bem certo como é essa medida e se dá mesmo para falar em porcentagens de dor e de choro, avaliar a quantidade de lágrima que escorre e correlacionar tudo com o tamanho do buraco na saúde mental que percebo desde muito tempo. Penso, comparo, delineio, talvez alguém se interesse por estudar essas coisas. Por viver isso ninguém se interessa. Peço ajuda para a amiga que está online e ela não titubeia, rápida com a dor: “Invente um exercício: chora um pouquinho, ri um pouquinho, 550 km”.

Olho em volta, talvez seja apenas o ventilador que ressecou a lente de contato. Vou ao banheiro, termino de chorar, coloco os óculos. Talvez uma lente mais grossa me impeça de fazer o pior e repetir a cena. Os clichês todos vão dizer: chore. E eu, querendo me diferenciar, vou dizer: segura, represe. Então fecho as comportas da dor que vinha brotando igual piracema na tromba d’água. Foi o ventila-dor.

Uma canção para o Quitinho

fio.jpgComo tenho desejo e capacidade cognitiva, jogo no Google “como ler partituras” e encontro diversos métodos. Um, inclusive, promete ensinar a ler na velocidade da luz. Leio, sigo os passos. São oito passos, num dos sites pelo qual me aventuro. Talvez eu tenha digitado “como aprender grego” no campo de busca. Não, era partitura mesmo.

Tento abstrair, talvez seja uma questão de respirar fundo, de substituir aqueles pontinhos pelos pássaros nos cabos de energia. Não dá. Os fios não formam um pentagrama. O poste não está em formato de clave de sol.  Tento a clave de fá, usada por instrumentos mais graves, incluindo a mão esquerda do piano. Repito o que escrevi outro dia: grave é esse meu sentimento. Minha clave encrespa já na primeira tentativa.

Continuo lendo o manual para “leigos”: “aprenda a respeito do tempo”. Então eu me deparo com a minha primeira proximidade com algo realmente inteligível. Entendo o tempo, a métrica, o pulso, a batida. Essa parte parece mais com poesia, meu campo minado e habitável quando estou apaixonado. As métricas simples e facilmente identificáveis não me interessam. Pulo vários passos. Depois aprendo a solfejar. Este é um verbo que nunca escrevi antes. Procuro sua conjugação, no meu terreno mais seguro e no qual posso por o pé no chão. Leio mais alguns passos, vejo que já ouvi falar em bemóis e sustenidos, mas isso no livro “Metal rosicler”, da Cecília Meireles. Tento ler. Não consigo.

Agora vou mudar de assunto, já que não aprendi muita coisa. A verdade é sempre preferível à mentira. Os meus sobrinhos não foram devidamente informados sobre o destino do passarinho que eles tinham, na verdade, um periquitinho azul. Num domingo de sol, igual esse da foto, o periquitinho igualmente azul subiu pela tela da piscina, alcançou a hera, a cascata, tomou a grade que fica na divisa com o terreno do vizinho. Meu pai me chamou: – Corre, vem ver onde o Quitinho subiu! Corri. Ele estava lindo ali em cima. Tive medo que ele caísse. Esquecera-me do óbvio: ele tinha asas. Meu pai tentou resgatá-lo. Antes de pegar qualquer ferramenta de resgate (vulgo peneira de limpar piscina), o Quitinho partiu. Ganhou o mundo, voando pelo lado sul. Ainda corremos à sua caça. Estaria ele machucado? Teria caído? Teria sido atropelado? Seria devorado por uma ave maior? Não voltaria nunca mais? Seu azul seria camuflado na floresta logo ali?

Depois de passado o susto da fuga, meus pais inventaram a história da morte do bicho. Meus sobrinhos acreditaram no relato dos avós. Avós também mentiam. E eu, sem coragem de revelar a verdade e não querendo contraria a minha linhagem, guardei tudo esse tempo todo. Queria eu também ser igual ao Quitinho.

Nunca vou aprender a ler partituras, mas voaria 332 km por causa do desejo.

Nunca vou me esquecer da alegria do Quitinho voando pela primeira vez. Essa é a verdade.

Bilac e o fagote

Fico excitado com a ideia de que toques para mim, qualquer que seja o instrumento, órgão, violino, piano, até flauta doce. Esse será o meu ponto de corte. Se tocares direi sim. Se não tocares a vida vai seguir. Como sempre seguiu.

Aguardo ansioso pelo áudio, ainda que saiba que essas coisas que eu gosto, antigas, não combinam muito com as novas tecnologias. Melhor seria estar na rede, em balanço, como quem não conta minuto a minuto a ausência de qualquer resposta. Ou num auditório com a acústica perfeita, absorto de uma tal forma que o tempo seja um senhor a ser reverenciado. Faríamos, então, a sua audição. Os meus ouvidos virgens desse sentimento todo abrir-se-iam ao que tens a me dizer. Recorro rapidamente a Bilac, que não me deixa enlouquecer sozinho: “Ora (direis) ouvir estrelas”.

Respiro profundamente imaginando que tu possas tocar um fagote, o mais grave instrumento de madeira da família dos sopros.

Grave mesmo é esse meu coração que faz poesia com sopro.

Aprender de uma vez por todas

Minha mãe achava casamento
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é ter um segundo encontro.
Aquele dia de noite, nós dois no carro,
você matando aula,
eu matando a vontade
e provando que podia te segurar no colo,
ela me mandou mensagem de voz:
“Coitado, até essa hora escrevendo artigo”.
Comprou-me um livro novo, arrumou o meu armário,
ficou imaginando como seria se eu tivesse um anel no dedo
e um casal de filhos.
Vamos devagar com o andor, mãe:
ele ainda não me falou em namoro,
essa palavra de luxo.

A “Poesia Reunida”

adelia
3ª edição do livro Poesia Reunida, de 2016. Editora Record.

Minha história com Adélia vem de três encarnações, talvez até mais. Recordo de quando fugi do trabalho para assistir a uma de suas palestras na Feira do Livro de Ribeirão Preto-SP. Levei os dois livros que tinha à época, comprados em sebo. Levei também uma poesia que tinha escrito pra ela. Peguei autógrafo, fiz pergunta. Logo eu que jamais tenho coragem de perguntar nada, ainda mais para quem me faz tremer tanto.

Junto do poema que lhe dediquei coloquei meu endereço de email. Aguardei, sonhador, um possível retorno dela. Nunca veio. Adélia, que mora no Olimpo, perto de Divinópolis-MG, não deveria acessar email, igual terráqueos. Entendi o silêncio de Adélia. Até mudei de email. Mas continuei escrevendo pra ela. Pensando nela. Como um amante secreto. Daqueles pra vida inteira.

Ouço Adélia e me tremo todo. Leio seus poemas em voz alta. Choro. Adélia me entende, me penetra, acalanta minha tristeza de uma vida, desperta alegria igual florinha amarela. Penso em tatuar seus versos no meu corpo. Minha pele pergaminho. Quanto querer!

Compro uma máquina de escrever. Faço versos que não consigo avaliar criticamente: isso tem algum valor literário? Não me importo mais, já que Adélia não deve ter gostado mesmo do que escrevo. Sigo na escrita porque preciso.

Vou à livraria e vejo uma terceira edição de “Poesia Reunida”, em capa dura. Um luxo. Igual a palavra amor. Compro, pois quero reler todos os poemas dela, devagar, quase soletrando, sentindo. Ao final, na lista de artigos sobre sua obra, encontro meu nome na referência, meu artigo de 2013. Sobre o seu livro “A duração do dia”.

Choro igual criança. Não me importa saber se Adélia leu ou não meu poema ou o meu artigo. Meu nome está num livro dela. Artigo que escrevi não porque pesquiso, mas porque a amo – antes e de modo perene. Isso vale por tudo o que já escrevi. Choro mais. Abraço o livro. Durmo de rosto colado com Adélia.

E preparo a pele para a tatuagem que virá.