Estamos buscando o quê?

Pessoal,

li essa matéria com a psicanalista Maria Rita Kehl, publicada na Folha de São Paulo do dia 06/09/2009 e gostaria de compartilhar um trecho com vocês.

Maria Rita Kehl, psicanalista
Maria Rita Kehl, psicanalista

“Alguns sintomas, na atualidade, têm se tornado mais frequentes e mais incômodos do que as formas consagradas das neuroses e das psicoses no século passado. Hoje as drogadições, os transtornos alimentares, os quadros delinquenciais e as depressões graves desafiam os analistas a repensar a subjetividade. Isso não implica necessariamente que as antigas estruturas clínicas tenham se tornado obsoletas.

O que encontramos hoje nos consultórios psicanalíticos é um novo sujeito? Ou são novas expressões sintomáticas que buscam responder ao velho conflito entre as pulsões e o supereu -este representante das interdições e das moções de gozo, no psiquismo? O sujeito contemporâneo está mais próximo do perverso, que sabe driblar a falta pelo uso do fetiche? Ou é ainda o neurótico comum que, em vez de tentar seguir à risca a norma repressiva, tenta obedecer a um mestre fetichista que lhe ordena a transgredir e gozar além da medida?

Por enquanto, tenho escutado, em média, neuróticos mais ou menos estruturados tentando corresponder à suposta normalidade vigente, a qual -esta sim- já não é mais a mesma nem do tempo de Freud, nem do de Lacan. A “crise do sujeito”, outra face da chamada “crise da referência paterna”, corresponde, a meu ver, ao deslocamento e à pulverização das referências que sustentavam, até meados do século passado, a transmissão da lei. Não se trata da ausência da lei na atualidade, mas da fragilidade das formações imaginárias que davam sentido e consistência à interdição do incesto -a qual, desde Freud, é considerada condição universal de inclusão dos sujeitos na chamada vida civilizada, seja ela qual for.

Se o homem contemporâneo sofre do que [o psicanalista francês] Charles Melman chamou de falta de um centro de gravidade, é porque as referências tradicionais -Deus, pátria, família, trabalho, pai- pulverizaram-se em milhares de referências optativas, para uso privado do freguês”.

Estaríamos nós carentes desse tal centro de gravidade, um ponto de equilíbrio que nos remeta ao resgate de uma série de noções que vêm sendo esquecidas em nossa contemporaneidade? Obviamente, a rapidez e a fragilidade dos laços que estamos construindo nos afastam cada vez mais daquilo que, em discurso, buscamos: um amor, uma vinculação, um compromisso sério, um espaço no qual possamos aceitar e ser aceitos de modo incondicional. À reflexão de Maria Rita Kehl eu acrescento que vivemos um momento particular em que se busca e, ao mesmo tempo, não se sabe o quê. Quais os sentidos de um amor verdadeiro, de um compromisso em nossos dias? Não podemos simplesmente dizer que estamos numa época de rupturas. Estamos em uma fase, e sempre estivemos, de reconstruir novas possibilidades, mas partindo do resgate íntimo do que buscamos na realidade. Pare de procurar. Pense no que você quer buscar. Isso muda o foco e pode aliviar possíveis vazios injustificados. E isso não é nada simples.

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

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