O que podemos aprender com um último capítulo?

A novela está acabando, mas outras estão acontecendo ao mesmo tempo e outras ainda virão para atualizar nossos conhecimentos acerca de nós mesmos. Um homem pode realmente perdoar tudo por amor (uma traição, um filho ilegítimo, uma ruptura com as regras sociais e culturais vigentes)? Uma mulher pode passar por cima de seus sonhos pelo amor que sente pelo seu marido ou companheiro (abandonar alguns de seus sonhos profissionais e uma possibilidade de ascensão para casar e ajudar um marido com problemas)? Por amor é que muito vem sendo feito e que muitos desejos vem sendo negados, escamoteados, jogados para debaixo dos panos, dos tapetes, escondidos, enfim.

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Maia e Raj, personagens da novela Caminho das Índias, da TV Globo.

O perdão é uma virtude e creio que seja necessário tempo e amadurecimento para que cheguemos em uma postura de perdoar aos outros pelos seus possíveis erros, desvios de trajeto ou imperfeições no processo de constituir-se humano. É necessário um aprendizado constante de nossas características para que possamos perdoar alguém: temos que desenvolver a empatia, nos colocarmos no lugar do outro (ou pelo menos tentar esta aproximação). Mas uma modalidade do perdão me intriga ainda mais: pedoar porque se ama. Será que todos que amam devem perdoar? Quando se admite que se perdoa por amor, está implícito que quem ama, perdoa. E se você não perdoa quer dizer que não ama?

O não-perdão é tão maduro quanto o perdão, desde que contextualizado. Todos merecem uma segunda chance, mas todos merecem amadurecer e aprender com a vida e as diferentes experiências. Todos merecem crescer, florescer, aprender com os seus erros e com os dos outros também. Assim, não perdoar alguém pode ser uma atitude madura, difícil e que pode ensinar tanto quanto o perdão, muitas vezes dado de modo barato e sem uma reflexão a respeito. Não quero dizer que não se pode perdoar por amor. É preciso que se esclareça, antes, o que se chama de amor e como se pode crescer perdoando ou não. Não perdoar por mágoa ou pirraça não é crescimento. Não perdoar por falta de recursos pessoais pode ser autêntico. Não perdoar para ver o outro sofrer já é uma outra história.

Amor, perdão e outras tantas virtudes devem ser pensadas. Mas nunca se esqueça que devem ser sentidas e vividas com intensidade e integridade. Não seja tão duro ou tão rígida. Seja autêntica. E amadureça com os seus aprendizados e dores, ainda que eles venham motivados por uma telenovela das 21h. Bom último capítulo a todos!

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

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