Para que coriza, Tatica?

objeto

do meu mais desesperado desejo

não seja aquilo

por quem ardo e não vejo

seja a estrela que me beija

oriente que me reja

azul amor beleza

faça qualquer coisa

mas pelo amor de deus

ou de nós dois

seja

E mais uma vez o Paulo Leminski me chacoalhou de jeito!

Uma vez assisti a uma palestra de um poeta que dizia que nunca deveríamos passar um dia sem escrever uma linha e sem ler uma página. Eu tinha dez anos. Hoje acho que ele deveria dizer que o importante é não enferrujar e não se fechar às experiências que a vida nos oferece e que nos cobra um dia ou outro (sim, a vida nos cobra pelo que nos dá! – nos cobra principalmente responsabilidade pelo que somos e podemos experimentar). Gosto de aprender uma palavra nova todo dia, mas muitas vezes o importante é reaprender uma palavra velha-nova a cada dia. A palavra de hoje bem que podia ser autenticidade. E quem será que é autêntico? Para mim, ser autêntico é ser você mesmo, sem medo do que as pessoas vão achar ou dos crivos da razão que com certeza vão te assolar (embora eu não seja fã da psicanálise, “acredito” em super ego e nos “estragos” que ele pode fazer se for levado tão a sério, rs).  Você acha que as outras pessoas a acham louca? Só porque você acha que o pior de um resfriado é não sentir o cheiro de um sushi? Só porque você se assume mulher e sabe para onde ruma o seu desejo? Só porque você insiste em entrar em contato com aquilo que lhe é mais visceral? Só porque você se aventura a entrar em contato com a contradição que existe em você (e não existe só em você, mas em toda a torcida do Corinthians também, meu bem!).

Para mim, louco é que não sente, quem simula afeto, quem esconde o olho para não encarar a vida, quem bajula, quem se apega a uma máscara porque tem medo de ser rejeitado por ser o que se é. Loucura é ser bege, cinza ou pastel pelo simples fato de nunca sair da moda (há coisas que existem há séculos e que não trazem alegria a ninguém). Podemos estar de muitos modos (estar feliz, estar empregado, estar namorando, estar apreensivo, estar equivocado), mas ser é outra história. Podemos ser nós mesmos, podemos ser menos cismados, mais sanguíneos e mais tolerantes com os nossos erros ou com a quantidade de “coisas” que ainda precisamos mudar em nossas vidas. É perdoar-se por não estar no caminho do meio e não ter vergonha de ficar nos extremos da curva normal. Dê um tapa nessas pessoas que teimam em não ser. Autenticidade é um pouco disso. E o melhor de tudo é ter o carinho das pessoas que te admiram justamente por você ser aquilo que é, na desmedida. Loucura é não cheirar o mundo. Loucura é não ser. Você é.

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

6 comentários em “Para que coriza, Tatica?”

  1. Ah, que lindo!!
    Vou plagiar: “Tatica, você é!!”. Que emocionante é amar e se sentir amada por vocês! Quando a autenticidade do outro é linda dessa maneira como é a de vocês, é fantástico viver!!! Doce, quando leio o que você escreve, meu coração se sente compreendido!

  2. Ai, vocês me ensinam tanto! E cada encontro nosso é material para muitas e muitas reflexões. O bom disso é poder não levar a vida no automático e tentar tornar especiais mesmo os momentos mais simples, com autenticidade. Tem um livro do Seligman que se chama “Felicidade Autêntica”. É este o processo, de aceitação e de compreensão.
    Beijos e amo vocês!

  3. Oh Meu Deus, nem sei o que dizer… obrigada, obrigada, obrigada. Hoje acordei meio torta, sarando da gripe. Olhei para fora e ainda estava chovendo. eheheh Dia cinza. Pensei na minha força, nas minhas fraquezas, na minha idade e solidão, e resolvi ver meus e-mails. Que surpresa maravilhosa, uma publicação com meu nome! Meu dia ficou ensolarado. Amo vocês por tornarem meus dias assim: de sol. Aprecio a sinceridade, o carinho, e a compreensão de cada um. E obrigada Fabito por lutar por essa bandeira. Diante de um mundo tão artificial é nosso dever continuarmos autênticos e felizes.
    Deixo para complementar uma frase de Lou Andréas Salomé, amante de Nietzsche, e objeto de minha admiração, pela sua coragem e autenticidade frente à vida:
    “Ouse, ouse… ouse tudo!!
    Não tenha necessidade de nada!
    Não tente adequar sua vida a modelos,
    nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém.
    Acredite: a vida lhe dará poucos presentes.
    Se você quer uma vida, aprenda… a roubá-la!
    Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer.
    Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso:
    algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!”

    Lembre-se que meu coração apaixonado estará sempre aberto à vocês. Beijos, Tati.

  4. Ai, Tatica, ver a sua intensidade nos faz muito bem!
    Vocês sempre me inspiram, sempre!
    Amo-amo-amo!
    Beijos e um dia de muito sol e céu azul na sua vida!

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