Para fazer um triângulo amoroso…

Jorge, Luciana e Miguel, o triângulo amoroso de "Viver a vida".

E lá vamos nós para a novela das oito. Embora não seja das melhores, há aspectos interessantes para podermos refletir. Talvez seja esse um aprendizado possível em um programa popular. Nesta novela temos dois irmãos gêmeos que nunca se entendem, desde crianças. O clímax da disputa se encerra no triângulo amoroso completado pela namorada de um deles. Um deles afirma que o irmão roubou a namorada dele, que ele entrou no namoro dos dois para separá-los, enfim. O outro, na verdade, é o irmão, no caso. Tudo em família. E é por isso mesmo que as coisas complicam neste ponto. Disputas entre irmãos são comuns. São mais comuns ainda quando o que se disputa é o amor, que começa lá com os pais. Enganam-se os pais que acreditam na falácia de que se ama dois filhos da mesma forma – nada mais injusto do que tratar duas pessoas diferentes, que merecem tratamentos distintos, da mesma forma. Sempre gostamos mais de alguma pessoa que de outra, por “n” motivos. Preferimos nosso pai à nossa mãe, preferimos um amigo a outro, enfim, a vida é feita de escolhas e preferências.

Mas o que me chama a atenção no caso não é a briga entre os dois (um pouco exagerada e mal dirigida, a meu ver), mas sim a questão de que a namorada não está nem um pouco a fim do namorado, mas sim do irmão dele (e é correspondida). Até antes do acidente a situação já era esta. Mas será que foi o irmão que acabou com o relacionamento? Ainda ontem um deles (o “traído”) esbravejava: “Você roubou minha namorada, você entrou no nosso namoro para destrui-lo”. A resposta é não. Ninguém tem o poder de entrar em uma relação se não for convidado ou se não encontrar as portas e janelas abertas. Ninguém entra à força em nosso coração. São as pessoas que permitem que alguém se aproxime e desperte nelas todo tipo de desejo e de sensação. Não estou dizendo que as pessoas devem se fechar ao contato com os outros, pelo contrário. Mas quando um relacionamento não vai bem, a possibilidade de que “apareça” uma outra pessoa é maior.

Aqui cabe uma ressalva: não “aparece” uma pessoa, mas são os membros do casal que permitem que este outro seja significado como tal. Assim, todos os envolvidos, de certa forma, escolheram os caminhos que a relação tomou: quando cuidamos menos, quando nos afastamos, quando não nos dedicamos, quando demonstramos menos afeto, confiamos menos, nos permitimos mesmo, quando não nos entregamos, é claro que estamos deixando de nos doar à relação. E com isso abrimos uma lacuna no outro, lacuna esta que pode ser preenchida de diversas formas, inclusive partindo para um outro relacionamento. Uma forma de não permitir que isso ocorra é cuidar da saúde do seu relacionamento. Ninguém possui uma relação tão certa e estável que não tenha que cuidar, que não tenha que se dedicar.

Podemos sim nos apaixonar várias vezes pela mesma pessoa e isso tem a ver com o modo como criamos significados em torno do ser amado. E isso não quer dizer que você tenha que ficar com alguém para sempre, é óbvio que muitos relacionamentos acabarão e outros te mostrarão outras coisas, mas acho fundamental a atitude de saber que nenhum namoro ou casamento se sustenta sozinho, sem que ambas as partes queiram ou desejem isso.

Beijos a todos!

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

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