Ideias (e sonhos! e desejos! e vontades!) para fora das gavetas! Já!

As pessoas vivem tendo sonhos, desejos e ideias. Há pessoas especializadas em ter grandes ideias: para tudo há uma solução, para tudo há uma saída, ideias à mão cheia! Uma grande amiga me contou esta história, uma vez. Depois a li com calma. E fiquei horas pensando, matutando um jeito de abrir as gavetas e deixar as ideias tomarem forma. Em nossa vida, muitas vezes achamos que as nossas ideias são sonhos, são coisas que podemos jogar ao vento e que não têm importância alguma. Mas elas podem ter sim. Um exercício importante é colocá-las em prática, não deixá-las passar! Quando guardamos uma ideia (ou um desejo) em nossa gaveta, corremos o risco de esquecermos a chave da gaveta, de o desejo embolorar ou mesmo de não mais “desejarmos aquele desejo guardado”.  Uma dose diária de coragem de seguir seus desejos (ou as suas ideias!) pode tornar o dia mais especial e a sua vida mais feliz. O tempo nem sempre espera.

Assim, quero compartilhar com vocês este conto de Marina Colasanti, chamado “Uma ideia toda azul”, extraído de um livro homônimo, publicado pela editora Global.

Boa leitura a todos!

“Um dia o rei teve uma ideia. Era a primeira da vida toda e, tão maravilhado ficou com aquela ideia azul, que não quis saber de contar aos ministros. Desceu com ela para o jardim, correu com ela nos gramados, brincou com ela de esconder entre outros pensamentos, encontrando-a sempre com alegria, linda ideia dele toda azul.

Brincaram até o rei adormecer encostado numa árvore. Foi acordar tateando a coroa e procurando a ideia, para perceber o perigo. Sozinha no seu sono, solta e tão bonita, a ideia poderia ter chamado a atenção de alguém. Bastaria esse alguém pegá-la e levá-la. É tão fácil roubar uma ideia! Quem jamais saberia que já tinha dono? Com a ideia escondida debaixo do manto, o rei voltou para o castelo. Esperou a noite. Quando todos os olhos se fecharam, ele saiu dos seus aposentos, atravessou salões, desceu escadas, subiu degraus, até chegar ao corredor das salas do tempo. Portas fechadas e o silêncio. Que sala escolher? Diante de cada porta o rei parava, pensava e seguia adiante. Até chegar à sala do sono. Abriu. Na sala acolchoada, os pés do rei afundavam até o tornozelo, o olhar se embaraçava em gases, cortinas e véus pendurados como teias. Sala de quase escuro, sempre igual. O rei deitou a ideia adormecida na cama de marfim, baixou o cortinado, saiu e trancou a porta.

A chave prendeu no pescoço em grossa corrente. E nunca mais mexeu nela. O tempo correu seus anos. Ideias o rei não teve mais, nem sentiu falta, tão ocupado estava em governar. Envelhecia sem perceber, diante dos educados espelhos reais que mentiam a verdade. Apenas sentia-se mais triste e mais só, sem que nunca mais tivesse tido vontade de brincar nos jardins. Só os ministros viam a velhice do rei. Quando a cabeça ficou toda branca, disseram-lhe que já podia descansar, e o libertaram do manto. Posta a coroa sobre a almofada, o rei logo levou a mão à corrente.

Ninguém mais se ocupa de mim – dizia, atravessando salões, descendo escadas a caminho da sala do tempo. Ninguém mais me olha – dizia. Agora, posso buscar minha linda ideia e guardá-la só para mim. Abriu a porta, levantou o cortinado. Na cama de marfim, a ideia dormia azul como naquele dia. Como naquele dia, jovem, tão jovem, uma ideia menina. E linda. Mas o rei não era mais o rei daquele dia. Entre ele e a ideia estava todo o tempo passado lá fora, o tempo todo parado na sala do sono. Seus olhos não viam na ideia a mesma graça. Brincar não queria, nem rir. Que fazer com ela? Nunca mais saberiam estar juntos como naquele dia.

Sentado na beira da cama o rei chorou suas duas últimas lágrimas, as que tinha guardado para a maior tristeza. Depois, baixou o cortinado e, deixando a ideia adormecida, fechou para sempre a porta”.

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

2 comentários em “Ideias (e sonhos! e desejos! e vontades!) para fora das gavetas! Já!”

  1. Eh Fábio… você e suas belas reflexões!! Realmente, precisamos correr atrás dos nossos ideais! É tempo de arriscar pelas ideias e sermos felizes!

  2. Com certeza, Juliano!
    Já leu este livro? Ele é ótimo, eu recomendo. Perfeito em sua simplicidade, aula de filosofia por debaixo de um livro infantil.
    Abraços e escreva sempre!

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