Experimente profiteroles!

Desde crianças, a tradição cristã nos ensina que há um caminho certo (geralmente o da direita) e um caminho errado (o da esquerda, obviamente). E assim muitos crescem com a inverdade latejando em suas cabeças de que só existem dois caminhos possíveis e de que o correto é sempre estar à direita ou no caminho reto, de preferência. As artes marciais também gostam dessa filosofia, pensando que retidão de caráter tem a ver com escolhas adequadas. Deus até pode escrever certo pelas linhas tortas, mas (o que nos dizem) é que devemos evitar a sinuosidade das curvas, pois é nela que podemos nos perder. Alguns realmente passam a vida acreditando na pseudo-perfeição que se coloca ao nosso caminhar por algumas tradições que nos constitui. Religiosidade à parte, não podemos prever se os caminhos mais acertados são os mais retos, os mais tortos ou os da direita.

Entendo os caminhos mais acertados como aqueles que nos fazem melhor, aqueles que nos permitem crescer, amadurecer, questionar, nos faz mais leves e nos prepara melhor para a vida nossa de cada dia. O caminho mais acertado é aquele que nos agrega valor, aquele que nos possibilita produzir novos sentidos, aquele que nos liberta e nos escancara as portas das oportunidades.

Assim, nem sempre o caminho mais bonito ou o que a sociedade diz que é correto é o melhor para nós. Às vezes não é sendo tradicional que a gente consegue encontrar a nossa verdade. Às vezes não é fazendo o curso que dá mais dinheiro que a gente se realiza mais. Às vezes não é indo pelo caminho mais suave e mais previsível que a gente encontra a felicidade ou mesmo a facilidade. Não há caminhos mais “condizentes”,  mais “lógicos”, há caminhos que as pessoas acreditam que sejam o melhor para a gente. Mas (in)felizmente é cada um que decide ou que escolhe o caminho que quer percorrer, seja isso bom ou ruim no futuro. O que importa, no fim das contas, não é o resultado ao qual se chega, mas o processo de trilhar a sua jornada. Não se aprende nada com a sua vitória ou a sua derrota. Aprende-se, sim, no derrotar-se e no vencer-se.

Não coma salada de frutas só porque é a única coisa que tem na sua geladeira. Não chupe picolé porque é a única coisa que bate à sua porta sempre após o almoço. O caminho diferente, que fica à esquerda daquela curva sinuosa e de difícil acesso pode ser um bom começo para uma sobremesa mais gratificante. Passadas as grandes festas de nosso calendário e iniciado o período de trabalho (para alguns, o trabalho interno só começa depois das festividades também), é hora de provar novos sabores de vida.

Você já comeu profiteroles?

Você que não conhece este prato, talvez já tenha ouvido esta palavra antes. Profiteroles vem da palavra gratificação, aproveitar. Trata-se de uma sobremesa muito popular na França, considerada o brigadeiro para os franceses. Pode ter sabores diferentes, mas a mais tradicional é de baunilha. Com sorvete, então, é divino. E como toda divindade tem o seu preço, não é das sobremesas mais saudáveis. Vai ficar se perguntando se está certo ou errado? O medo de provar pode ser também o medo de gostar, e de se agradar.

Beijos com sabor de profiteroles!


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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

2 comentários em “Experimente profiteroles!”

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