Depois do dia internacional da mulher

Frida Kahlo, pintora mexicana que revolucionou os costumes de sua época tanto em sua conturbada vida pessoal como em sua arte

É bem verdade que a mídia anualmente nos inunda de uma série de homenagens à mulher. E é bem verdade também que isso só acontece duas vezes ao ano, no dia internacional da mulher e no dia das mães. Quando muito, elas também são lembradas no dia dos namorados. Aqui vemos um enforcamento de sentidos, como se o ser mulher se resumisse à sua atividade procriadora. A mídia é exímia em produzir esses sentidos. Se olharmos a programação televisiva no dia 8 de março, poderemos ver essa imagem materna altamente veiculada. Por que a mulher é mais especial que o homem? Porque ela pode dar a vida! – esbravejava uma dessas apresentadoras de programas femininos matinais. Outras procuram fazer diferente e enfocam a entrada da mulher no mercado de trabalho e mostram mulheres executando serviços antigamente só feitos por homens, como se a questão fosse dar conta do que o homem faz. E daí seguem típicas discussões: TPM, menopausa, hormônios, casamento, traição, num exercício eterno de compreensão das diferenças entre homens e mulheres. E dá-lhe diferença! No dia da mulher, a impressão é de que somente as mulheres podem falar ou se sentem autorizadas a falar, enquanto os homens são calados e relegados a um papel coadjuvante (inclusive para gerar a vida – espermatozóides, pra que te quero?). Mas por que isso só é possível neste dia? Ou por que sempre as mesmas imagens ligadas ao feminino?

Falar em mulher é falar em diversidade. Não há um modelo de mulher, mas há mulheres que merecem sim todo o nosso respeito e admiração. Não são apenas as célebres mulheres de nossa história que devem ser colocadas como exemplos (geralmente são as humanitárias que são lembradas, a depender do programa – ou então as bonitas, também a depender do programa que se assiste). Ser mulher é muitas coisas ao mesmo tempo e lidar com essa diversidade é algo que a nossa sociedade ainda não sabe fazer. Queremos traçar perfis, queremos dizer como está a mulher atualmente, queremos dizer quem é a mulher pós-moderna. Em um país como o nosso, há espaço para as mulheres que se colocam como objetos, para as mulheres focadas na profissão, para as mães, para as donas de casa, para as que se colocam como submissas, para as que se tornaram independentes, para outras tantas, inclusive para aquelas que não se conscientizam de sua condição. É um engano resumir. É um equívoco tentar uniformizar, se justamente a riqueza está nessas múltiplas formas de ser mulher.

Desejo que essas tantas mulheres possam celebrar o seu dia (pois ele é representativo de uma causa, de um marco histórico e não apenas para lembrar que elas existem) e todos os outros seguintes. Com consciência, com inteligência, com tranquilidade para ser aquilo que se é. E a mulher que você é só depende de você e não das imagens que querem criar em torno de seu aparelho reprodutor. Como diria a escritora mineira Adélia Prado, “mulher é desdobrável”. Que 365 dias ao ano você possa se desdobrar. Parabéns pelo dia de hoje, que também é dia da mulher!

Beijo carinhoso!

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

3 comentários em “Depois do dia internacional da mulher”

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