A família do vizinho nem sempre é melhor que a sua

Há um programa na TV aberta que se chama “Troca de família” (na verdade, o programa é trazido do exterior e virou um quadro dentro de outro programa, na TV Record). Descontando o fato de ser um reallity show (e que muita coisa é programada, dissimulada, etc.), ele nos oferece pontos para reflexão. O mais interessante, a meu ver, é que como a saída de um membro da família (geralmente a mãe) e a entrada de um outro (a mãe de outra família) acaba desestruturando (no mau e no bom sentido) algo que era tido como estável e permanente. Embora o programa acabe optando por trocar famílias aparentemente opostas, o que tende a gerar mais conflitos mesmo, a atitude para com as novas famílias e as novas mães é digna de ser observada e comentada.

Nos episódios das duas últimas semanas, a família de um pedreiro e lutador de vale-tudo teve que conviver com um líder hare krishna. A família hare krishna, por sua vez, recebeu o lutador em sua casa. Pelos estereótipos, podíamos suspeitar de que o lutador tivesse uma dificuldade maior de adaptação, mas foi o oposto: o pai hare krishna quis impor seu modo de vida (ou simplesmente manter a sua rotina, a despeito do que a família desejava ou não fazer). Ou seja, ele continuou o mesmo e não tentou aprender com a família do lutador. Este, por sua vez, conheceu não apenas os costumes da religião, os hábitos alimentares, como também deu dicas de como o pai hare krishna deveria se relacionar com os filhos, com maior contato físico, com maior integração, mais carinho (e menos meditação). Em sua simplicidade, o lutador (aparentemente encantado com a nova realidade) soube se adaptar melhor do que o pai hare khishna (aparentemente mais “evoluído” e preparado para as intempéries da vida física). E não é apenas uma questão de não comer carnes, peixes e ovos – é uma questão de respeito ao diferente, a uma realidade que pode até parecer distante (até espiritualmente), mas que existe e clama por um olhar de carinho e de consideração.

O que podemos tirar disso? As famílias são diferentes, possuem uma forma singular de organização e não podem simplesmente ser comparadas, como se fossem grandezas iguais, ainda que estejamos falando de famílias de camadas médias. O modo como uma família encara o consumo dos alimentos, por exemplo, pode ser algo extremamente importante, ligado a hábitos de saúde e também a crenças religiosas. Em outra família, é uma questão de poder aquisitivo. Em outra, não chega a constituir um tema para discussão. Enfim, as lógicas familiares seguem rumos próprios, mas é sempre interessante conhecer sim outros modelos familiares. Por curiosidade, por respeito à diversidade, por aprendizado ou simplesmente para valorização de nossos próprios modelos, que não são melhores nem piores, mas diferentes e, por isso mesmo, merecedores de atenção.

Abraços a todos!

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

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