Mudar de vida aos 40…

Vamos desmistificar o fato de mudarmos quando completamos mais uma década. Há pessoas que só fazem festa de aniversário aos 30, aos 40, 50, 60 e por aí vai, enquanto a expectativa de vida em seu país permitir. E há pessoas que escolhem essas datas para fazer coisas especiais em sua vida, como se fossem ritos de passagem (na verdade, são). Mas acreditem, a gente muda todo dia e não é o término/início de mais uma década de vida que vai dizer se melhoramos ou pioramos. Se você quer eleger o seu aniversário de 40 como a hora de mudar, tenha certeza de que a mudança já começou bem antes, talvez estivesse aí desde sempre. Mas se for só para datar o fato, que seja!

E aí, qual "armário" te aprisiona?

Esta semana recebi uma pergunta de um leitor que, aos 40 anos de idade, casado e com filhos, resolveu assumir sua homossexualidade (e, consequentemente, se “assumir” – pois assumir-se é bancar tudo aquilo que somos, inclusive nossas orientações, desejos e trajetórias de vida). Como é dito popularmente, ele resolveu “sair do armário”. Não é apenas esse armário (leia-se, sexualidade) que pode nos aprisionar. Vivemos constantemente dentro de muitos armários invisíveis que nos impedem de ir além, que cerceiam a nossa liberdade, que dificultam nosso contato com o que somos, com o que queremos e com aquilo que desejamos passar para as pessoas. Casamentos, namoros, trabalhos, filhos, responsabilidades em demasia, falta de tempo para você mesmo, excesso de tempo para fazer qualquer coisa, falta de cuidado consigo mesmo e tantos outros fatores podem ser esses “armários”. E quando se sai deles, quando se abandona a forma anterior, pode ocorrer um processo doloroso, mas extremamente sadio. Ninguém consegue esconder-se de si mesmo por muito tempo. Ninguém consegue mentir para si diante do espelho (tirando os casos mais patológicos). Ao abandonar o seu armário, seja ele qual for, saiba que você não poderá apagar o seu passado e que não “vai compensar os anos vividos” fazendo loucuras, chocando as pessoas, fazendo orgias, pintando o cabelo de vermelho, transando com desconhecidos, fazendo inseminação artificial, doando seus bens aos pobres, indo morar com os índios ou radicalizando a sua rotina. Não tem como voltar atrás, mas tem como ser diferente daqui para frente, com mais liberdade, mais sabedoria e com a certeza de que você está sendo mais sincero com as suas questões e a sua própria vida. Acredite: não podemos arrancar as portas de nossos armários e libertar tudo o que nos aprisiona, mas podemos aprender a usá-las para nos preservarmos e também para buscarmos a felicidade. O segredo de um armário é saber usá-lo como tal.

Boa quinta-feira a todos!

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

7 comentários em “Mudar de vida aos 40…”

  1. Com certeza devo estar escondida em diversos armários. rs.
    E acho que o medo de sofrer ou de ter o orgulho ferido é o que nos leva a usá-los como armadura.
    Tem que ser muito corajoso para se aceitar do jeito que você é diante dos “padrões de vida” atuais.
    Beijos.

    1. É, armário não pode ser sinônimo de armadura! A vida exige coragem diária, então, uma hora ou outra a gente tem que se deparar com a gente, de cara e sem abreviações. Mas sabe, é melhor fazer isso enquanto é tempo! Toda mudança deixa a gente mais apreensivo, mas acaba nos fazendo bem depois, nos tormamos mais sinceros com a nossa própria vida! Obrigado por sempre participar!

  2. É muito engraçado como nós REALMENTE vivemos em vários armários… Foi a parte que mais me chamou atenção do seu texto. Nós podemos ficar presos em tanta coisa, desde a sexualidade até na cadeira que fica na frente do computador, ou na nossa cabeça que não descansa, que não desliga das responsabilidades… Parece que criou raízes no armário rs A impressão que eu tenho é que algumas pessoas (inclusive, ou principalmente, eu) sente que não está aproveitando o dia se não está fazendo nada “útil”. E às vezes não fazer nada é exatamente o que a gente precisa! Junta com a ideia do superego, que incorpora o que imposto socialmente… Acho que está tudo interligado. Enfim, foi mais um desabafo rs Parabéns pelo blog, Fabito! Muito bem escrito, como todas as suas produções =)

    1. Oi, Carol, muito obrigado pelo elogio! Adoro cultivar este espaço aqui! Você tocou num ponto muito importante: quando a gente está descansando ou aparentemente “não fazendo nada”, nos cobramos demais. A gente está perdendo a noção de que somos limitados e que precisamos cultivar o lúdico também! Estar “sem nada para fazer” de vez em quando já é fazer algo por nossa saúde! Beijo grande!

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