Sobre despedidas, desfechos e tecidos

A natureza nos ensina que a vida é feita de ciclos: a gente nasce, cresce (uns mais, outros menos, em vários sentidos), reproduz (idem) e morre. Mas por que a gente tem dificuldades em lidar com alguns ciclos que se fecham em nossas vidas? Não é fácil sair de um relacionamento e ir para outro, trocar um emprego por outro, largar de curso, começar tudo de novo, mudar a trajetória de vida, reaprender a viver de um modo novo, depois de muito tempo. As mudanças que ocorrem em nossas vidas (e que nos obrigam a fechar ciclos e abrir outros novos) devem ser encaradas sempre pelo lado positivo, ou seja, por aquilo que agregam em nossa experiência e pelas aberturas que nos proporcionam. O fim não é fim (sempre fica algo, muitas das transformações marcam nossa pele, nosso rosto, nossa alma) e o começo não é começo (ilusão de começar aquilo que já se iniciou há muito tempo, mas que não imaginávamos ter iniciado). Ciclos são para ser cumpridos com coragem. Histórias de vida são para ser vividas, construídas, reconstruídas. Afinal, somos mais maleáveis do que pensamos.

Na vida, é preciso aprender a bordar, coser, pintar, dobrar, desdobrar, vincar e vestir tudo aquilo que somos e que aprendemos com o tempo, como um tecido velho e igualmente precioso.

Ouso acreditar que o ser humano é como um tecido que se dobra, desdobra e redobra várias vezes, pode ser cortado, arrumado, acomodado ou tingido, mas jamais poderemos apagar certas marcas nesse tecido que usamos não apenas para nos cobrir e viver em sociedade, mas também para comunicarmos o que somos e o que queremos. Uma vida é como um tecido que já foi dobrado várias vezes, está cheio de vincos e que terá tantos outros. E o bacana da vida é ver como o nosso tecido vai mudando conforme amadurecemos, conforme conhecemos pessoas (que nos marcam, que nos despem, que nos recortam, que nos dobram e nos guardam) e conforme o lavamos (com água, com lágrimas, com suor, com sonhos).

Não é fácil dizer adeus. Não é fácil dizer “seja feliz aonde você for” quando queremos estar perto de alguém. Mas a certeza de que as coisas novas (o porvir) nos lembrarão que somos transitórios e que podemos aprender com isso é o que me incentiva a dizer que vale a pena viver, se entregar, oferecer a sua joia ao outro e poder “gastar” o seu tecido com as coisas que realmente fazem sentido. Deixe-se dobrar, deixe-se coser, transforme-se no melhor que pode ser feito do tecido que você é.

Eu fico com a certeza de que somos pessoas que fazem pausas. Esta é uma pausa. Apenas isso. Então, minha rosa, não se preocupe com a distância, ela é só uma subversão de linguagem. Vamos colecionar tecidos e que venham os novos ciclos! Como diria Mario Quintana, “atiro a rosa dos sonhos nas suas mãos distraídas”.

P.S. Já atirei a rosa dos sonhos. Obrigado por tudo!

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

10 comentários em “Sobre despedidas, desfechos e tecidos”

  1. Fabito…
    Que lindo!!!
    Mas confesso que fiquei com invejinha da Bombom.. :p
    Realmente nossas vidas são construídas por inúmeros ciclos e isso não é tão ruim assim. É através das mudanças que aprendemos mais, nos fortalecemos e nos conhecemos melhor. E como são boas as novidades não é? 🙂
    Quanto a saudade, eee coisa ruim, acredito que ela seja boa, pois ela demonstra o quanto somos importantes para as pessoas que estão ao nosso redor. Além disso, o reencontro é sempre mais gostoso, cheio de abraços e sorrisos sinceros. 🙂
    Vou parando por aqui senão acabo escrevendo uma bíblia.. rs
    Mas quero que você saiba que mesmo te conhecendo a pouco tempo, você acrescentou muita coisa na minha vida, aprendi muito!!
    E pelo pouco que te conheci já deu pra perceber que você vai arrasar muito por todos os lugares que passar. 🙂
    Beijos,

  2. Oi, Aline!
    Ai, essas despedidas! Não tem como a gente crescer se não abandonarmos o nosso corpo infantil, não tem como crescer se a gente não se despir de certas coisas, de conceitos, de práticas, de formas de ser. O importante na vida é que podemos sim crescer, mudar e aprender com cada pessoas que cruza a nossa vida. Obrigado pelas suas palavras e pelo apoio de sempre, você é uma pessoa muito doce e “menina para casar”.
    Beijo grande!
    Fabito.

    1. Lindo texto mesmo!!!

      Me fez pensar em todos os bons momentos que vivi com meus antigos amigos e tudo o que ainda está por vir, em cada reencontro com a felicidade, que cada dia aparece de uma forma diferente… sempre vale a pena apostar em si mesmo, são os sonhos que guiaram os homens até aqui e que os levarão até o inimaginavel…

      Puxa Fábio… é realmente uma pena a gente não ter convivido mais, nem deu pra eu “colocar minhas asinhas de fora” ainda… rsrs…

      Mas sei que vc é uma pessoa maravilhosa e que fez por merecer tudo o que alcançou… Parabéns por tudo… e que as mãos distraídas se encham de rosas… até não caber mais!!!

      Beijinhos!!!

      1. Nossa, Keila, que lindo o que escreveu! Eu é que a agradeço pela confiança e por fazer parte da minha trajetória profissional! Vou guardá-la em meu coração! Sorte, saúde e sucesso em todos os caminhos que você trilhar!
        Beijos!

  3. Fábio!
    O bom da vida é saber que tudo tem um final feliz…
    Mudanças assim fazem a gente pensar em toda a nossa trajetória, do pequeno feito até a nossa maior conquista.
    A data está se aproximando… e com isso a ansiedade e as expectativas crescem, e sempre vem aquela pergunta na cabeça: “Será que estou fazendo a coisa certa?”, “Como será morar lá?”, “Como conseguirei não morrer de saudades?”, “Será que vou demorar a me acostumar a um novo ritmo de vida?”, “O que terei que enfrentar?”, “Encontrarei pessoas em que poderei confiar e que tornarão-se verdadeiras amigas?”.
    Só sei de uma coisa: acho que nunca conseguirei te esquecer. Meu primeiro chefe, primeiro psicólogo com quem vivo diariamente e incrível pessoa cheia de energia que todo mundo quer ter ao lado para conversar.
    Precisamos aproveitar o tempo que NOS resta, porque há todo um mundo que ainda te espera lá fora.
    Com certeza, fará falta…

    1. Minha honorável rosa! Como não se apaixonar por você, me diz? Obrigado por tudo!
      Te admiro muito e saiba que não vou desaparecer! Torço pelo seu sucesso e tenho certeza que terá um futuro brilhante, pois se dedica de corpo e alma àquilo que deseja. E o que você deseja? Não importa, o que importa é seguir em frente! As respostas às nossas tantas dúvidas talvez permaneçam, mas o importante é que estaremos ligados, de um modo ou de outro, pelo que vivemos e por isso mesmo é eterno.
      Beijos!!!

  4. Lindo texto como sempre, vem sempre a calhar, realmente a vida é um ciclo, e temos que aprender a lidar com isso! Beijos!!!

  5. Fabito,

    Estou em crise..me dei conta de tudo e já está batendo desespero.
    Tantas coisas pra te dizer..
    Saudadess!!
    Te amo!

    1. Oi, amore, eu também te amo! Não vamos sofrer, pois o que nos une é maior do que a distância ou qualquer outra coisa! Vamos aproveitar bastante esses próximos meses! Beijos!

  6. Fabito,

    Sei que nunca comento aqui, mas estou sempre atenta às coisas que você escreve e aos seus sutis ensinamentos no dia a dia. Concordo com você ao dizer que a vida é feita de fases, marcadas por momentos doces, amargos ou que quase sem sabor.
    Eu costumo distinguir muito as pessoas, observá-las. Para mim, pessoas especiais são aquelas que não apenas vivem “as fases”, mas as recriam. Como você disse: “… é preciso aprender a bordar, coser, pintar, dobrar, desdobrar, vincar…”. O seu tecido está cada dia de um jeito, e não porque você é inconstante, mas porque você sabe recriar!
    Durante esses dez meses que estive com você, pude colher minhas amostras, guardar alguns retalhos, que, com certeza, estarão para sempre comigo.
    Vou sentir muito a sua falta, de coração!

    Um beijo e um abraço forte,

    Mari

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