Um tempo de delicadeza

Estamos em um tempo no qual as trilhas sonoras são colocadas em trilhas, tais como terra de chão batido pelo qual passamos, sem ao menos notar em quais palavras estamos pisando. Automatizamos nossas coletâneas e elas passam por nós mais como contexto do que como enredo. E foi por um desses descuidos que passei por esta música e nunca parei para pensar em toda as suas nuanças. Mas fui advertido a tempo, por e-mail! Chico Buarque, na música “Todo sentimento”, traz os seguintes versos:

Depois de te perder, / Te encontro, com certeza, / Talvez num tempo da delicadeza, / Onde não diremos nada; / Nada aconteceu. / Apenas seguirei / Como encantado ao lado teu.

Mesmo com todo sofrimento, com todas as angústias que experimentamos diariamente, precisamos nos dar de presente este tempo no qual possamos não cultivar as dores do passado, em que sejamos mais tolerantes com os erros dos outros e também com os nossos, um tempo chamado por Chico de delicadeza. E por que delicadeza? O que é delicado deve ser manuseado com calma, com tranquilidade, com preciosismo, com atenção, minúcia. Assim também é a nossa vida e os nossos afetos. Muitas vezes, atropelamos tanto o outro que acabamos nos escamoteando e não vendo como podemos fazer diferente, como podemos acolher, como podemos tratar mesmo as coisas rotineiras como especiais e como produtoras de sentidos vários. Nossos sentimentos deixam de ser vividos “em seu todo” para serem tudo, o tempo inteiro, sem espaço. Por isso cada vez mais queremos um outro e não sabemos viver sem ele, batemos o pé, saímos à caça e não nos permitimos sequer um espaçozinho para nos tratar com delicadeza, com cuidado.

Sendo assim, não se preocupe tanto com os sentimentos que está vivenciando, não credite ao sofrimento um espaço maior do que ele precisa, senão ele sufoca, machuca, assim como o amor. Observe mais, ouça mais, respire na mesma frequência, sem afobação. Muitos de nossos problemas se resolvem apenas quando organizamos nosso afeto, nossa morada de sentimentos. Nem tudo precisa te tirar do eixo para chamar a sua atenção, não é só o furacão que nos tira do lugar, mas também o silêncio. Não deixe de ouvir a música que está aí te martelando, ela pode ser o insight que estava faltando para completar aquela sua história que você guardou em um canto qualquer.

Beijos e uma semana cheia de pequenas delicadezas a todos!

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

7 comentários em “Um tempo de delicadeza”

  1. Fábio,

    Essa é uma das músicas que mais me tocam… e quando a melodia se coloca, parece que somos levados a conhecer tudo que está dentro de nós pronto à explodir, a florescer! é linda mesmo e de uma sensibilidade sem igual… E é isso que vejo sempre em você: uma sensibilidade pra enxergar no pequeno, nas coisas simples, algo tão gradioso que nos coloca no eixo, nos tira da correria.
    Meu querido (e posso dizer, amigo): Peço à Deus que suas palavras possam sempre chegar à nós que esperamos por essa suavidade num começo de semana.
    Um grande abraço.

    1. Nossa, André, fiquei emocionado com o que escreveu! Muito obrigado pelo seu carinho, sua leitura, seu incentivo. Um ótimo meio de semana, então!
      Abraços!

  2. E o Chico é o homem das sutilezas, não é? Acho até validado que algumas trilhas virem trilhas, sejam como for, parecem nos conduzir a algo. E é bom ter esse momentos epifânicos.

    Eu não sou muito boa em delicadezas, confesso. Vou aos trancos e barrancos, forçando e fazendo descer goela abaixo, vivendo (sentimentos) intensamente e não aceitando menos que o mesmo. Aceito, no mínimo, a (o que julgo ser) reciprocidade de sentimentos.

    É duro, né? Porque as coisas não são assim, não devem ser e nem irão ser um dia, cada pessoa é e sente de acordo com sua personalidade, seu jeito de ser, e não como achamos que a pessoa deveria sentir. Racionalizando eu sou ótima, na prática, nem tanto.

    ^^

    Acho que achamos um nome pro seu blog 😉

    beijo

    1. Dai,
      é um bom nome mesmo, né? Mas fico com receio de mudar, alcoolgel já me parece tão meu, rs!
      Desculpe pela demora em responder, esta semana está sendo as das novidades!
      Beijo grande e saudades suas!
      Fabito.

  3. Fabito,
    Acho que estou precisando de mais delicadeza na minha vida viu.. hehe
    Tudo o que você escreveu é verdade e eu concordo, mas colocar isso em prática na minha vida já é outra história.
    Tantas vezes deixei que um pequeno erro, quase irrelevante, tomasse conta do meu pensamento como se o mundo fosse acabar por causa daquele monstro gigantesco… rs.
    Pode ser que eu seja dramática demais, exagerada mesmo, mas preciso parar com essa mania de viver intensamente os sentimentos ruins, guardar menos rancor, afinal, isso só afetará a minha felicidade..
    Talvez eu até tenha medo de ser feliz, ou até ache que não mereço ser.. Vai entender esse meu lado dark né. rs.
    Mas continuo minha vida, tentando achar a tal delicadeza dentro de mim e tentando ser feliz sem sentir culpa. =)
    Beijos

    1. Aline!

      Tentar ser felizz sem sentir culpa por isso é fundamental. Estava conversando com um amigo meu sobre isso. Ele ficava tanto querendo agradar, ajudar, fazer os outros felizes, que ele se esquecia dele, negligenciava as coisas que ele mais gostava e que mais lhe davam prazer. Vamos buscar mais o prazer em nossas vidas, issso é fundamental! Permita-se, permita-se!

      Beijão!

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