Quando acaba o primeiro amor?

Recebi uma pergunta por e-mail de um homem que acabou de se casar, mas que vem sendo assolado por uma ex-namorada dos tempos de colégio. À época, o namoro não deu certo, eles acabaram se afastando e cada um seguiu a sua vida. Ele se apaixonou novamente, se casou e agora a ex do passado retornou à sua vida, passados mais de dez anos. A dúvida dele é: trocar seu casamento (ainda que recente) pelo amor mal resolvido do passado?

Cena clássica do filme Meu primeiro amor, de 1991. E quem já não teve o seu, hein?

Bem, vamos refletir juntos. Acho o amor um sentimento sublime e regenerador, quando estamos com uma pessoa que amamos podemos ir além, nos sentimos mais seguros, podemos ser mais autênticos e, quem sabe, mais felizes. Sendo assim, coloco-me como uma pessoa que considera este sentimento como algo positivo na vida das pessoas. Mas, no caso, o amor do passado não era bem amor, era uma coisa que simplesmente não aconteceu. A sua dúvida não me parece ser a de quem quer viver o amor de verdade, mas sim quem quer experimentar aquele amor que não aconteceu há dez anos, em uma tentativa estranha de fazer diferente. Não, não podemos fazer diferente, nem tudo a gente pode consertar, colar, lixar e vender novamente. As palavras, as ações, as escolhas e os afetos não são flexíveis de acordo com o nosso desejo.

O seu casamento você conhece bem, a sua esposa você conhece bem, mas não tanto para dizer que não vale a pena . Em menos de um ano de casado é difícil criar uma parceria, solidificar uma relação de carinho, cumplicidade, respeito. O amor é construído aos poucos e o casamento é uma tentativa de construção da afetividade que requer tempo, paciência, concessão e cuidado. Inclusive a dúvida que está sentindo agora já faz parte do seu casamento e deve ser trabalhada tendo em mente que jamais teremos certeza absoluta das coisas. Teremos, sim, sentidos que atribuímos, assumimos e recriamos conforme nossas experiências. É normal ter dúvida, sentir certa atração pelo que é incerto e misterioso, mas há muitas formas de trabalhar isso.

Compreendo a sua curiosidade, mas isso não justifica “não tentar fazer com que um casamento dê certo”, entende? O seu amor pode muito bem ter ficado lá atrás e ser um motivo de alegria, de relaxamento, mas não de voltar lá e tentar fazer tudo diferente. O tempo não volta e, ainda que pudesse voltar, não seria tolo em não nos transformar. Aquelas duas pessoas que se gostavam aos vinte anos de idade, infelizmente, não existem mais. Hoje há você, a sua esposa, um casamento e muitos recursos – de ambos – para construir uma conjugalidade saudável, reflexiva e promotora de desenvolvimento para os dois. O seu grande amor pode ser mesmo aquela mulher que reapareceu agora (“e quem um dia irá dizer que não existe razão nas coisas feitas pelo coração?”, como cantava a Legião Urbana). Mas acredite, aquele amor já teve o seu tempo. O tempo de amanhã ainda está para ser escrito. Concentre-se nisso.

Abraços e boa sorte na sua decisão!

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

8 comentários em “Quando acaba o primeiro amor?”

  1. Oi, Beth, sinto muito a sua falta também!!!! Como você está? Quando der um tempinho, venha me visitar aqui em Minas!
    Beijo grande!

  2. Fabito,
    Me deu vontade de ver esse filme de novo!! rs.
    Aiai. O primeiro amor.. Que bom que ele não se torna o único amor não é?
    Concordo plenamente com o que você escreveu. Aquele amor antigo já teve seu tempo e o sentimento que gera essa dúvida agora, na verdade, é a saudade dos bons tempos, aqueles que não voltam mais. As pessoas mudam e é muito difícil reencontrar a “mesma” pessoa por quem nos apaixonamos há tanto tempo.
    Sempre sentiremos um carinho especial, uma saudade gostosa, do nosso primeiro amor não é? Mas eu costumo vê-lo como o carinho e a saudade que sinto dos meus tempos de criança.. Pois eu sei que eu cresci, o mundo mudou, as pessoas ao meu redor mudaram e não existem máquina do tempo para que eu possa reviver tudo aquilo. 🙂
    Beijão,

  3. Amado!
    Esse post serviu tanto para mim!
    Eu tenho o meu amor do passado, e é pra ele que fujo em pensamento toda vez que tenho um problema, mesmo quando tenho outro alguém…
    Nunca mais vi esse menino (na época éramos crianças!), mas ainda sonho com ele e aquele sorriso que eu acho ser uma das coisas mais lindas do mundo!
    Mas o que você disse sobre “seguir” e se concentrar no amor de amanhã, que ainda está por vir, eu concordei.
    E preciso agradecê-lo por conseguir me ajudar!
    Um beijão!

    1. Amada, tudo aquilo que vivemos é importante em nossa história e constitui aquilo que somos, né? Então, temos que guadar muito bem todos os nossos amores, pois eles nos ensinam a viver e nos tornam mais leves e menos sofredores com o tempo. E viva o primeiro, o segundo, o terceiro, o n amor.
      Beijos e muitas saudades!

  4. Vem a minha mente imaginar tantas incertezas que nos são apresentadas qual? Sera? Porque?… e tantas outras … . A questão que vem a minha mente neste momento e que quando o amor chegar o verdadeiro problema sera saber se esse e o meu grande e primeiro amor ….Mas talvez o primeiro e grande amor não passe de uma idealização de algo perfeito, talvez algo que queriamos que tivesse acontecido … não sei , o amor e um tema que deixas muitas incertezas …

    1. Oi, Neftali,
      muito obrigado pela sua participação aqui!
      A vida amorosa é permeada por crises, angústias e muitas incertezas sim, isso é próprio do ser humano. O importante é aproveitar e ir colhendo todos os aprendizados possíveis neste processo!
      Abraços,
      Fabio.

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