Motivos para tomar chuva

Se tem uma coisa que me encanta no verão são as chuvas fora de hora – ou, que seja, na hora certa. Essas pancadas que ocorrem ao longo do dia são verdadeiras preces que nos surpreendem de tempos em tempos. De repente o tempo se fecha, uma chuva torrencial cai sobre a gente e, minutos depois, ela se dissipa, o solo seca e nem sinal daquilo reboliço todo.

Ontem mesmo tomei duas boas chuvas. A primeira saindo do médico, foi cerca de uma quadra correndo na chuva e molhando da cabeça aos pés. Ao chegar no carro bem que me deu vontade de voltar pra fora e ficar molhando mais um pouco. Parecia que o aprendizado ainda não estava completo. Mas eu tinha horário e não deu pra sair. Engoli seco essa chuva não vivida.

Uma hora depois, ao sair da minha psicóloga, nova chuva, agora de menor intensidade, mas que me fez desistir da caminhada que havia planejado. Então retornei para casa com cara de criança que ficou sem o brinquedo. E depois nada mais deu certo no meu dia. Se pudesse voltar no tempo, tinha feito a caminhada e lavado a alma “de acordo”.

Nas duas ocasiões a chuva parecia importunar o meu dia sequinho e cartesiano. A água vinha não apenas molhar, mas também mexer com o que estava retilíneo demais, era quase como pintar com aquarela, atividade que me mostra que nem sempre dá para controlar por onde a água vai e borra aquilo que não esperávamos.

Hoje caiu chuva de novo e eu estava dirigindo. Na rua, todo mundo tentando se proteger, a chuva parecia importunar muita gente também. Avisto à minha direita uma moça correndo, de uniforme, parecia estar indo para o trabalho. Eu pensei: nossa, ela vai chegar toda molhada. Pensei em parar e oferecer carona. Mas aí me detive mais nesse quadro: a moça corria e sorria, na verdade estava gargalhando. Talvez estivesse com vergonha das pessoas que, como eu, avistavam a sua São Silvestre pessoal. Mas não, ela estava feliz com a chuva, com o inesperado, com a secura que, de repente, abandonou a sua existência. Confesso que deu vontade de parar o carro e correr com a moça. Mas a sua felicidade era inalcançável.

Anúncios

Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s