Lição do dia

Hoje me lembrei de um conto da Clarice Lispector chamado “Lição de filho” que eu sempre gosto de revisitar. Termina assim:

– Você não sabe diferenciar emoção de nervosismo? Você está tendo uma emoção.
Entendi, aceitei, e disse-lhe:
– Não vou tomar nenhum calmante.
E vivi o que era pra ser vivido.

Talvez eu goste muito desse conto porque, a bem verdade, tenho dificuldade de viver o que tem que ser vivido. Ainda bem que não passo sozinho nessa característica. Quando temos uma briga ou discussão qualquer e depois acordamos mal no outro dia, uma enxurrada de autoajudas baratas nos batem à porta e ordenam: “seja feliz hoje”, “hora de sorrir”, “bom dia” e por aí vai. Essa tentativa de melhorar acaba, isso sim, piorando tudo, pois quem não está no melhor dos seus dias acaba achando que está errada, que tem que reagir, que tem que abrir o sorriso falso e agradecer a Deus pela oportunidade desse aprendizado. OK que tudo é um aprendizado, mas tem dias em que a única coisa a ser feita é viver o script e deixar que o roteiro diga o que deve ser feito, sem pressa, culpa, sensação de dever por cumprir ou coisa que o valha.

O fato é que às vezes temos dificuldade de dar nomes aos nossos sentimentos e a vivê-los em sua plenitude porque eles não são tão próximos daquilo que vemos nas redes sociais, na mídia e até na casa da vizinha. Mas acredite: mergulhar nesses sentimentos é a coisa mais honesta a ser feita. Ainda que você pareça de mal humor (e realmente está), ainda que pareça mal comida (nem se fala), ainda que quisesse mais da sua vida (bem mais!). Viver o que tiver que ser vivido é uma forma de realmente compreender esse roteiro, entrar no personagem (que, no caso, é você) e isso tudo fazer um sentido só seu. Vivendo o que tiver que ser vivido podemos ser mais inteiros nas relações, podemos ser mais verdadeiros e, quiçá, experienciarmos outros tantos sentimentos depois (uns melhores, que bom) com a mesma entrega. Então viva o que tiver que ser vivido hoje e faça bom proveito disso. A sua verdade também pode ser contagiante.

 

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

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