Mantenha distância segura do carro da frente

Eu não consegui fazer isso com o meu carro. É apenas para ilustrar o texto.

Então um dia a gente se distrai no trânsito e, por um milésimo de segundo, desejaria que aquilo não tivesse acontecido. Você bateu no carro da frente. Isso aconteceu comigo hoje cedo. E embora nada demais tenha acontecido, nenhum ferido, poucos arranhões, o cara do carro da frente nem se irritou muito e achou melhor ir embora sem fazer B.O., você sente aquela culpa danada e se pergunta por que se levantou mais cedo, por que fez aquele trajeto e por que resolveu mesmo existir. Sim, todos os questionamentos parecem vir ao mesmo tempo e a sua primeira reação mais genuína depois de bancar o controlado diante da sociedade é chorar. Sim, encostei o carro minutos depois e desaguei. Para quem está no interior de São Paulo vai perceber que não é só o tempo que está desaguando, sem cessar.

E então fui pensar no que tudo aquilo significava. A batida era um grande puxão de orelha. Sim, daqueles bem dados que não dizem apenas: preste atenção! Trânsito é coisa séria! Mas daqueles que também dizem: olha, cuida melhor de você, da sua vida, do que você tem, olhe pra você. Pois fui olhar pra mim logo depois da colisão. E não me reconheci lá muito bem. Essa chamada de atenção me fez olhar mais para a chuva, ter mais cautela e pensar que até que demorou muito para acontecer algum acidente. Eu ando meio relapso com muita coisa. Talvez a colisão seja um convite para muitas coisas, inclusive para ser mais suave e mais carinhoso comigo mesmo. Por isso acredito que nenhuma batida seja só um evento isolado e fruto da desatenção e da imprudência. Tem a ver com aquilo que só vemos quando damos com a cara no vidro. Dali não passa. De hoje não passa. Então vou tirar o resto do dia para pensar nessas tantas coisas, sem culpa e com o coração aberto não a novas batidas, mas a esses encontros íntimos que não deveriam ser lembrados com cacetadas.

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

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