Consulta de rotina

Dia de ir ao psicólogo e ao cardiologista é quase um pedido para fazer poesia. Devo sofrer mesmo do coração. Mas preferia ir a uma consulta de tarô para ter alguma novidade, ainda que fictícia e provisória. Sonho com o dia em que eu vá até o médico e ele me surpreenda com algo que não seja: “cuidado com o seu histórico familiar”, “perca peso” ou “não deixe de fazer atividade física”. Bem verdade, queria inquirir o médico e dizer: vamos lá, surpreenda-me com essa consulta!

Talvez seja melhor não ter nada e ser só uma consulta de rotina, quase como uma visitinha rápida, de passagem. Enquanto esperava por quase duas horas o médico chegar (quase um Papa!), pensava na quantidade de linhas que já teria escrito. Enfim, o que eu quero é viver, ainda que seja preciso dar uma passadinha no Dr. Fulano uma vez ao ano.

Também não disse a ele, mas me orgulho muito dos meus históricos familiares. São meus! Todas as diabetes, pressão alta e arritmias. Minhas, todas minhas, as quais vou ter o prazer de passar adiante caso me reproduza. Obviamente que não estou aqui lançando um contra-discurso sobre saúde, pelo contrário. Só acho que é preciso que os profissionais desenvolvam formas mais adequadas de contato com outro, formas que não subestimem a sua inteligência, formas que acolham, respeitem e façam crescer.

Sim, há aprendizado em tudo. Inclusive na sala de espera, à espera de tipos interessantes para retratar em um próximo post. Definitivamente, não nasci para esse autocuidado excessivo. Talvez meu autocuidado maior seja manter a escrita em dia, a fim de que não se transmita a indolência de quem escreve, mas sim o siricotico (é assim que se escreve?) que proporciona a reflexão, a mudança, o aprendizado. Então eu prefiro que esse médico, da próxima vez, me envolva mais na consulta, comente desse coração que tanto sofre e possamos, então, pensar na melhor recomendação, se remédio ou poesia.

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

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