Por que dar nome às relações?

Muitas vezes o problema é dar nome ao que sentimos, experienciamos, ao que construímos com as outras pessoas. As coisas estão lá, os fenômenos se revelam, mas nomear isso tudo é algo que pode contribuir para atribuir um sentido todo especial, potente e também transformador ao que já existe. Algumas relações só deslancham depois de que um nome é atribuído ao que se sente ou ao contrato que se estabeleceu no nível subjetivo. Assim, ficar, pegar, curtir, sair, beijar, namorar, noivar, casar, separar e tantos outros verbos no indicativo servem para indicar muito mais do que ações desempenhadas nas relações afetivas que estabelecemos, servem para que essas relações também existam.

Mas é aí que é importante compreender que elas existem para além dessas nomeações. Estar junto, construir uma vinculação, estar satisfeito com o que foi construído, isso sim parece ser mais interessante e mais importante. Porque isso é que define o que existe, o vínculo, o contato, a intenção, o sentimento. Nomeações são convenções. Veja, por exemplo, que nem sempre é fácil definir o que é um namoro. Mesmo porque o namoro pode envolver diferentes convenções, normativas e cuidados, de modo que podemos ter namoros bem diversos. Isso também é namoro? Talvez possa ser sim. Então dar nome pode ser importante, pode ser um passo, mas não resume. Pelo menos não para quem está dentro da relação.

Sei que isso tudo pode gerar muita angústia. Estar em uma relação “sem nome” não é nada confortável, mas pode ser agradável, pode trazer coisas boas, descobertas, aprendizados, sabores diferentes. Pode ser tão diferente que seja preciso inventar outro nome, começar uma nova categoria. Mas se dar um nome for importante, OK, nomeie, indique, crie uma referência, estabeleça um código para que a sociedade te encaixe numa categoria mais ou menos conhecida. Mas essa relação só vai acontecer mesmo se ela souber se sustentar apesar e além dos nomes dados. Porque o que tem nome acaba e começa tanto quanto aquilo que não se pode nomear.

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

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