A morte da galinha Tica

A natureza nos ensina muitas coisas. Os ciclos, por exemplo, podem ser aprendidos observando a vida em nós e também fora da gente, nas estações, nas outras pessoas, nos animais. Os animais domésticos formam um cenário aberto à visitação desde muito cedo. Sobre eles criamos histórias, atribuímos nomes, apelidos, caprichamos nas características que queremos destacar, enfim, formam personagens que nos ajudam a não entediar diante da peça maior que faz tudo acontecer, inclusive as maravilhas.

Uma galinha pode ser um bicho de estimação. Isso não apenas para quem vive no meio rural. Galinhas podem ser bem espertas e nos ensinar muitas coisas – sim, já que elas também fazem parte da natureza ou daquilo que deveríamos compreender de modo mais natural. Clarice Lispector, para quem não sabe, também escreveu para crianças. “A vida íntima de Laura”(Rocco, 1999) fala da vida-show de uma galinha, seu esposo e seu filho. As galinhas possuem suas intimidades. A natureza possui as suas intimidades. E se tudo possui uma intimidade, deveríamos ser mais naturais com uma série de senões que criamos para nos proteger daquilo que é mais tenro na gente: o afeto.

Observando a natureza aprendemos sobre a vida. Já diria Clarice, supostamente para as suas crianças-leitoras: “Aprender a observar é quase contar uma história. É uma aventura emocionante que todos nós deveríamos experimentar. Você já tentou?”. Então, minha grande amiga, dona-mãe da Tica, acho que você deveria se observar, aceitar a emoção do dia, o choro do dia, a canção fúnebre que tocou no momento que a galinha partiu. A galinha foi em paz, virou estrela, tudo. Podemos criar várias histórias para ela. Mas a grande verdade é que ela se foi brevemente, ao meio-dia, nem deu tempo de cantar sozinha o início de um novo dia. Vai chorar só porque uma galinha morreu? Eu choraria por coisas bem mais simples até. Ainda bem que temos a deixa da galinha para debulhar em soluços. Ela viveu o que tinha que ser. Há missões que poucas criaturas dariam conta.

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

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