Comprimento do corte

E então ela cortou os cabelos, estilo Joãozinho, bem curtinho. Logo ela que prezava tanto pelo cabelo que podia ser enrolado, alisado, cortado, colorido com tantas técnicas, cortado com ou sem franja, em bons ou maus salões de beleza que se encontram pela cidade. Resolveu inovar geral e ficou com cara de menina disposta a traquinagens várias, como cortar o cabelo tão curto.

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Vou ser clichê, mas lindamente clichê com Cecília Meireles: “Aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e voltar sempre inteira”.

O que a sociedade diria? Ah, vai crescer! Mas quem corta o cabelo assim para que ele cresça? De fato que ele vai crescer, mas a intenção não é a de aguardar isso com ansiedade, mas deixar-se crescer e curtir também o novo comprimento ao pé da orelha. As irmãs dizem ser pecado, que mulher com cabelo de homem pode ser confundida no juízo final ou quando Deus voltar, então é preciso deixar madeixas poderosas para ajudar a sinalização do Cristo. E se Ele voltar vai encontrar um mundo tão virado, tão louco, tão diverso, que vai ser difícil ele acertar quem é quem. Vai ter que recorrer a exame genético e, mesmo assim, definir homem e mulher desconsiderando a noção de gênero. Vai arranjar encrenca das bravas.

Então chega uma hora na vida que é preciso desconsiderar as opiniões várias. No máximo apenas ficar com aquelas que combinam com a sua e deixar o resto fluir. Agradar é um verbo perigoso e desconfio que seja muito difícil agradar qualquer pessoa. Vejamos nós mesmos, tão insatisfeitos com tudo! Não importa o comprimento do seu cabelo, isso não te faz menos mulher, menos crente em Deus, mais moderna ou qualquer outra coisa. Não importa a cor do seu cabelo. E se alguém se preocupar mais com isso do que com o que você sente aí dentro é hora de rever o que vai ouvir e de quem vai ouvir. É hora de mostrar que você cortou – e que cortar é tão necessário quanto respirar. Eu poderia concluir que adorei seu novo corte de cabelo, mas isso não é da minha conta. Absolutamente não é. Quem sabe o tamanho do corte é sempre a gente. E é importante confiar na nossa navalha.

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

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