Pra tudo acabar/começar na quarta-feira

Os dias de folia são ótimos para descansar. Ver tanta gente animada, vivendo o que pode e o que não pode, numa alegria “pra ontem” e me encontrar absolutamente em outra vibe é algo realmente prazeroso. Descansei vendo o movimento louco e alucinado de tudo que tinha que caber nesses dias. Acompanhei de “perto” pela TV e pela internet. Alegria boa é aquela que espanta até as mazelas, os problemas políticos e as epidemias de tantas doenças, inclusive as da alma. Nesses dias, pelo menos no Brasil, todos os assuntos tidos como mais sérios tornam-se interditos. O prazer de ver tudo isso meio que de fora é poder recuperar o fôlego enquanto todos os demais parecem se preocupar em perder o fôlego. Eu mesmo já estive do outro lado. E as duas experiências são igualmente importantes. Explico.

Viver o carnaval mostra que, em pelo menos quatro dias ao ano, muitas coisas tornam-se possíveis. Muitas das defesas são jogadas fora e vale muita coisa, desde travestir-se a beijar conhecidos, desconhecidos e quem vier pela frente, com o álibi de que isso faz parte da festa. Um respiro na loucura do terno de semana. Todo mundo alegre, todo mundo louco, por essa lógica esses períodos poderiam ser mais frequentes ao longo do ano. No carnaval muita coisa torna-se lícita. E é lícito ser feliz e esparramar isso sem ressalvas.

Não estar disponível para o carnaval também é um respiro na loucura. Poder dormir, relaxar, não se preocupar com muita coisa além de descansar e fazer isso direito, com competência. Explorar lugares que não são alvo da folia. Há os ranzinzas que xingam quem se diverte, mas não estou preocupado com eles. Há os clichês que postam “feliz ano novo” na quarta-feira de cinzas, hoje. Também não me preocupo com eles. E também não deveríamos nos preocupar com quem decreta a quarta-feira como o fim das coisas vividas nesses dias. Não precisa acabar. Precisa talvez aprender a começar.

Tem um samba do Martinho da Vila que resume bem:

Sonho de rei, de pirata e jardineira
Pra tudo se acabar na quarta-feira
Mas a quaresma lá no morro é colorida
Com fantasias já usadas na avenida
Que são cortinas, que são bandeiras
Razão pra vida tão real da quarta-feira
É por isso que eu canto

Desejo, portanto, uma quaresma colorida, de muita reflexão, de muita paixão, de inícios prósperos, de fantasias necessárias. Tudo pode começar na quarta-feira.

 

 

 

 

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

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