“Não há mal pior do que a descrença”

___chi
Consegui encontrar um chinelo bem semelhante ao que ganhei de presente por escrever versos.

Não me lembro ao certo quando comecei a escrever. Mas me lembro de quando fiz, talvez, a minha primeira poesia. A professora havia explicado como organizar versos em estrofes, a fazer rima, e logo me coloquei a tentar juntar algumas ideias nas aulas de Língua Portuguesa. Eu tinha 10 anos de idade, estava numa escola grande pela primeira vez. Foi aí que nasceu “A vida”. Não tenho a poesia completa, não sei como minha mãe não guardou esses registros (ainda não tinha celular para fotografar “a vida”), mas me lembro da primeira estrofe:

A vida é como uma poesia, / é ideia e fantasia. / É encantada / E cheia de alegria. 

Resolvi me inscrever em um concurso da escola com “A vida”. Ganhei meu primeiro prêmio: um chinelo “rider” tamanho mil vezes menor que o meu. E eu que sonhava em ganhar qualquer livro de poesias. Troquei o chinelo por outro maior, mas nunca mais parei de fazer versos.

O que eu quero falar a respeito dessa passagem foi que o meu pai, ao ler o poema, disse que eu deveria mudar o final da primeira estrofe. Ao invés de dizer “E cheia de alegria” deveria versar: “Com tristezas e alegrias”. Acho que ele queria me explicar que a vida real não era poesia e que eu não podia começar a minha obra me enganando e fingindo que a tristeza não existia. Eu sabia muito bem que a tristeza existia, era dado a chorar antes de dormir, chorar às vezes por nada. Quem se alegra com poesia é que ama o triste. E eu sempre fui assim.

Eu me recusei a mudar o verso, mesmo sob protestos familiares. A minha “vida” seria cheia de alegria, de esperança, de versos claros que revelam o desejo de quem escreve. Concordo com Toquinho e Vinícius: “não há mal pior do que a descrença”.

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

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