Não seja tão radical assim

Talvez não seja tão óbvio ser anti-herói. 

Desde criança sempre tive pavor das coisas que “todos” gostavam e que eram febre entre a garotada. Nunca gostei do que fazia sucesso e estava na moda. Assim, continuo com pavor de roupas que todos usam, filmes que todos assistem e best-sellers. Quando alguém me dizia que “todo mundo” gostava eu já desconfiava, mesmo porque “todo mundo” é muita gente e aglomeração nunca foi o meu forte. Com isso quero dizer apenas que tento buscar coisas diferentes e menos óbvias, embora seja impossível se diferenciar num mundo que mede tudo pela curva normal. E, assim como eu, tem um monte de gente que afirma o mesmo, ou seja, há grupos, normas e características comuns quaisquer que sejam os seus gostos. Eu amei solitariamente Clarice Lispector desde que a descobri em 1996, com “A paixão segundo G.H”. Tinha a sensação de que ninguém mais a conhecia e isso era um prazer exclusivo e secreto. E anos depois vi “todo mundo” fazer uma bagunça danada com o que passou a ser febre: citar Clarice, mesmo quando não tinha nada a ver com ela. Remexa-se onde estiver.

Ontem fui ao cinema assistir “Deadpool”. Confesso que não sabia do que se tratava, mas a fila era gigante, muita gente eufórica, eu já imaginava o que viria. Mas na tentativa de me surpreender, acabei me irritando. Primeiro porque a fila não andava, segundo porque eu simplesmente não consegui ver graça nenhuma no filme. Mas isso não significa que o filme seja ruim. Isso significa, pelo contrário, que é preciso abrir-se para as diferentes experiências sabendo que temos limitações. E que somos diferentes e está tudo bem se cada um gostar do que quiser e fizer o julgamento que achar mais adequado. Tem quem goste, tem quem não goste e este post está todo trabalhado no clichê básico da boa convivência humana.

Acontece que quando a gente firma numa posição só pode deixar de viver uma série de coisas. Respeitar seus gostos pode ser mais agradável e confortável, mas não poder deslizar-se em diferentes possibilidades acaba nos tornando chatos, inflexíveis, ranzinzas, exclusivistas. E pior: com a falsa impressão de ser diferente e original. Igual você tem muita gente, ainda que não seja “todo mundo”. Lembra-se das comunidades do Orkut? Tinha de tudo. Permita-se fazer algo que não gosta de vez e quando e aprenda com isso. Aprenda que tem muita gente diferente de você, mas que pode ser parecida em tantas outras coisas. Que abrir-se ao outro é poder, de alguma forma, compartilhar do que o outro vive, pensa, sente. Assim, aceito o convite para assistir outras coisas que eu sei que não vou gostar.

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

2 comentários em “Não seja tão radical assim”

  1. Adorei sua reflexão sobre a situação vivenciada! Acredito q o importante é isso mesmo: aprender algo com as experiências da vida, sejam elas boas ou ruins! Talvez isso seja amadurecer… q lindo é passar por isso com vc ao meu lado, amigo querido!

    1. A gente vai aprendendo e ressignificando tanta coisa, né? Que bom que me ajuda nessas reflexões todos os dias! Assim podemos sempre mudar e viver com mais verdade. Grande beijo!

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