O golpe da graça

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A obra foi escrita por Clarice em 1964.

Não sei se este texto de hoje vai ser compreendido facilmente, porque eu nem sei muito bem como explicar tudo aquilo que quero. Ontem (re)li “A paixão segundo G.H.”. Para mim o livro mais complexo da Clarice Lispector. Complexo e perturbador. A primeira vez que me deparei com esse livro foi em 1996, eu com 11 para 12 anos de idade, querendo devorar todo livro novo que eu via. Adorei a escrita de Clarice já em “A hora da estrela” e encontrei G.H. dando sopa na estante da biblioteca. Mas G.H. era outra estória. Eu me lembro que li o livro à época, mesmo que agora tenha apenas uma vaga recordação daquilo. Quando criança, ter lido era mais importante do que absorver o livro. Mas o próprio livro já me contraindicava a leitura em tenra idade: “Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada”.

Nos anos que se seguiram eu me deparei com esse livro novamente. Comecei a relê-lo e não obtive sucesso. Várias vezes, por sinal. E essa semana, depois de quase 20 anos da minha primeira vez com Clarice, decidi retomar a leitura para, agora, ler até o fim e compreender tudo de verdade. Eu não tinha mudado muito, continuava a me medir pelo crivo daquele que cumpre tarefas, mesmo entendendo que não é isso que conta. No juízo final não hão de perguntar quantos livros eu li, mas como eu consegui me salvar ao longo da vida.

Já nos finalmente do livro tive um sobressalto: é isso! Então é isso! Parecia que, de alguma forma, eu tinha entendido [ainda que toda compreensão seja provisória] e G.H. tinha entrado em mim e me entendido como ninguém: “O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça – que se chama paixão.” (p. 170). Talvez minha alma, após 20 anos, já estivesse um pouco mais formada. Talvez esse livro me acompanhe muito mais do que eu imagino e seja um exercício de aproximação e afastamento que me permite ora a visão privilegiada, ora o desconhecimento total. Será que um dia a alma vai estar formada?

Ao terminar a leitura, respirei, pesei, tive a certeza: eu já sabia que terminava assim a estória. Pareceu-me, então, que o menino de 11 anos ainda estava vivo de algum modo, feliz agora não mais apenas pela tarefa cumprida, mas pela possibilidade de ver-se compreendido, aceito, inquietamente acomodado em seu momento terapêutico da leitura. Tudo era claro, claríssimo, Lispector.

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

3 comentários em “O golpe da graça”

  1. Livros são portas. E esse foi, para você, uma das grandes. Isso é perfeito. São esses encontros que fazem e dão sentido à vida. Mesmo sabendo que eu talvez não atinja a mesma percepção (nunca atingimos), irei colocá-lo na minha lista. Lindo texto.

  2. Oi, André!!!! Obrigado pelo seu comentário e pela sua leitura de sempre. De fato, cada obra nos toca de modos distintos. E reside nisso um encantamento fundamental. Recomendo a leitura do livro. Tomara que promova encantamentos vários em você! Espero que esteja tudo bem contigo. Grande abraço!

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