Enquanto espero

Muita gente já disse que a paciência é uma grande virtude. Virtuoso foi Jó, narrado na Bíblia, que soube aguentar as suas agruras para depois ser recompensado por Deus. O modo como podemos desenvolver ou sustentar uma virtude é que me parece ser um grande desafio, pois Jó é uma grande alegoria que pede nossa reflexão. Isso porque não acredito que as pessoas nasçam pacientes. Talvez uma ou outra possa nascer mais acomodada, menos ambiciosa ou mais crédula em relação à própria sequência com os que os fatos se apresentarão na sua vida. No fundo ninguém nasce sabendo esperar.

E esperar não envolve apenas paciência, pois muitas vezes o que está por vir talvez não esteja por-vir, de fato. Esperar é, muitas vezes, ter curiosidade pelo incerto e pelo (im)provável. Então as pessoas esperam por uma promoção no trabalho, uma gravidez, uma oportunidade nova, um amor, um príncipe, um e-mail, um like ou até mesmo por um terremoto que mexa com tudo e com todos, que desfaça certezas. Ter paciência é, antes de tudo, acreditar que aquilo que se deseja pode ocorrer um dia, tanto pelo seu próprio esforço como pelo esforço do outro ou por uma ajuda do destino. Ter consciência que nem tudo depende de nós é importante para que não briguemos com os acontecimentos da vida. Você é responsável por muita coisa sim, mas não por tudo.

Confesso que tenho aprendido a esperar de diferentes formas. Às vezes escrevendo, às vezes desenhando, caminhando, encontrando atividades que me façam esquecer, ainda que por um breve período de tempo, que a espera é sempre muito dolorida. Também tento falar disso em terapia. Mas saber esperar pode ser uma grande companhia em tempos em que tudo parece ser instantâneo – e às vezes parece que a vida do outro é sempre mais rápida e movimentada que a nossa. Engano. A vida do outro não corre sem a famosa espera. Esperar é, antes de tudo, acreditar. Se eu não acredito, a espera não faz o menor sentido, as coisas simplesmente acontecem porque têm que acontecer e se der para acontecer.

Esperar não é uma virtude, é um aprendizado que cambaleia. Um dia a gente consegue, no outro a gente desiste e a sucessão de esperas pode talvez não dar em nada. Por isso o desafio da espera será superado pelo desafio de acreditar. Talvez isso é o que possa te manter mais firme em sua espera. Uma coisa é certa: a vida vai passar, de uma forma ou de outra, quer você espere pelo por-vir ou apenas se deixe surpreender por aquilo que chega. Por isso eu acho que, no fundo, ter saúde não é saber esperar, mas ter o que esperar. E isso podemos chamar de esperança.

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

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