Passarinho

IMG-20150426-WA0006 (2)Ela gosta do cheiro de pitanga. Gosta de pintar os cabelos de tempos em tempos, como se não quisesse ser reconhecida sempre da mesma forma. Corta os cabelos com tesoura sem ponta e sua franja é um grande mistério. Internamente pode estar tudo igual, mas pelo menos a carapaça vai se apresentar nova, colorida e renovada. A gente é o que dá conta de ser. E essa limitação fundamental fez com que você, perfeitamente humana, fosse misticamente mais sedutora do que qualquer mulher que já tirou a roupa publicamente ou na intimidade do seu quarto.

Ela gosta de fazer versos e toda quarta-feira me brinda com um texto novo. Às vezes a gente se corresponde em meio ao trabalho e na loucura daquele dia e dos afazeres programados uma poesia despretensiosa acaba salvando, nos salvando. Fazer versos é o nosso prazer compartilhado, quase um caso de amor. Na nossa escuridão a gente sempre se encontra. Ela gosta de cultuar aniversários e desaniversários, porque comemorar faz parte da vida e perde muito quem apenas conta o tempo.

Ela gosta de reunir pessoas em torno da mesa. Faz chá, bolinhos e frituras e parece, de repente, que você está em Minas. A sua casa é de bonecas. Um boneca que fala, dança, rodopia e vira criança pra brincar e desvira pra ser adulta e falar de coisa séria. Às vezes ela só quer ficar sozinha com as suas crises e é preciso aprender a lidar com os seus sumiços recorrentes. Então ela volta, novidade, com o cabelo de outra cor, apaixonada por outro ou por si mesma, e sempre com um convite auspicioso para um sábado de manhã.

Ela é feminista, briga nas redes sociais, não se diminui jamais. Ela tem o pinto grande e sabe se impor. E também é delicada, menininha e incapaz de cometer um homicídio. Mas de vez em quando suas palavras cortam e fica difícil me recompor. Mas ela faz isso apenas na escrita, de modo que consigo me levantar antes que ela veja que fiquei de quatro porque ela me endereçou uma ou duas frases. Matou a pau. Mas com uma margarida no rosto. Eu a entendo como nunca e a desconheço desde sempre. Por isso nosso amor continua forte, fiel, louco e dado a flertes.

Feliz aniversário, amada!

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

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