Não deu para contar quantas saias de filó tinha a barata

Quem anda na linha reta não dá conta de cometer uma pequena infração. Pois bem. Bebeu e dirigiu. Apenas uma caipirinha. Como se o “apenas” diminuísse a culpa e promovesse a absolvição de todos os pecados. O inferno deve estar cheio de “apenas”. Uma caipirinha daquelas que tinham a capacidade impressionante de fazer o tempo voltar e os problemas abandonarem o corpo ao qual pertenciam. Um instante de leveza e de uma singela mudança de rota na linha reta que ainda continuava abaixo dos pés.

Dirigiu cantando, janelas abertas e coração disparado de alegria alcoólica – quem bebe raramente se contenta com pouco. E foi então que entrou uma barata voadora dentro do carro em movimento (por isso esse post não vai ter imagem). Se toda barata voa e se aquilo era um acaso, não era possível saber. “‘Apenas’ por hoje a barata vai dar uma voadinha no carro”. A dita cuja percorreu todo o painel, dançou no rádio, explorou o retrovisor, sambou em cima dos ponteiros de combustível e parecia querer reconhecer o ambiente. Subiu no teto e a aflição da invasora cair por cima da cabeça, entrar pela camisa e percorrer as costas, o abdômen e o coração faziam o motorista morrer antes da hora. Não era nem medo, era aflição. Por ele e pela barata. Em avenida movimentada não era possível parar. Então a carona ia grande, desbravadora e destemida, até que em um semáforo resolveu explorar o lado do passageiro, até sair pela direita. Janelas fechadas. Ar ligado. E um longo respiro de alívio e de curiosidade pelo paradeiro da bicha. Estaria ela espreitando-o pelo lado de fora?

Ainda bem que não bateu o carro. Seria difícil fazer a polícia acreditar na estória, ainda mais sob efeito da caipirinha da saudade. Poderia o moço apelar para a saga de G.H. no livro da Clarice Lispector e dizer que, em poucos minutos, o drama psicológico vivido ao volante fora semelhante ao da personagem do livro (Já escrevi sobre isso aqui). Pouca gente entenderia. Era “apenas” uma tentativa de dar sentido àquela noite e brilho à visita inesperada. Também ele tinha visto tal qual G.H. Não era “apenas” uma barata. E isso o redimiu de tudo.

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

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