O fim da quaresma

Venho de uma tradição essencialmente católica, então sempre tive certo desconforto e fascínio pelo sofrimento humano, a exemplo do que foi vivido por Jesus segundo a tradição cristã. A saga desse grande personagem na quaresma e especialmente na Semana Santa nos mostram exatamente isso, a capacidade de o sofrimento nos purificar e nos permitir outras fruições, como a do amor.

Desde pequeno acompanho os pormenores desse período. Na quaresma as imagens de santos são cobertas com panos escuros e são veiculadas as recomendações para não comer carne vermelha, jejuar, falar baixo, não brigar, tudo por respeito a Deus. Tudo muito doloroso, penoso, de modo que atravessar um deserto realmente não deve ser para qualquer um. Por isso nossas representações são sempre cênicas e pouco experienciais.

Para além dessas metáforas todas, a via crucis de cada um pode ser analisada nesta semana de modo bastante humano. Em alguns desertos permanecemos por anos a fio, sem qualquer perspectiva. Repetimos erros, andamos em círculos e reclamamos sempre dos mesmos eventos que nos afligem. De alguma forma esse sofrimento deve ser útil para alguma coisa, como nos ensinar que a travessia é tão importante quanto o motivo que nos colocou no meio desse deserto todo. A vida de Jesus nos mostra que embora a trajetória seja individual e intransferível, podemos contar com a amizade, o apoio e a benevolência de outras pessoas.

Sempre vou achar esse período muito bonito pela sua melancolia. Talvez porque já saiba que a Páscoa, com o significado de renascimento, já esteja prevista no calendário e virá de uma forma ou de outra, com ou sem chocolate. Outros eventos em nossas vidas poderiam ter um fim previsível e datado como esse.

A repetição anual desse calendário todo talvez seja um apontamento importante para nos lembrar de que alguns problemas são cíclicos e nos visitam todos os anos, exigindo mudanças em nossa experiência mística diante de nossas agruras. Talvez seja questão de receber os problemas sem panos escuros e com mais braços abertos.

Anúncios

Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s