Tio Nito

Em março de 2002 eu entrei na faculdade e fui morar em outra cidade, maior e repleta de coisas para serem descobertas. Ao mesmo tempo que tinha desejado tudo aquilo, tinha muito medo. De quase tudo: de me perder, de me locomover, de ser assaltado, de não dar conta de tanto movimento, de querer voltar para casa. Logo eu que era acostumado com aquele calor paciente de vida interiorana. E em meio a esses tantos medos entrou em cena o Tio Nito. Irmão da minha mãe, o Tio Nito sempre fora parecido com o meu avô materno, o Tilão, que tinha falecido quando eu tinha sete anos. Ambos altos, fortes, bonachões, amantes das comidas repletas de açúcar e gordura. Desde então, o Tio Nito parecia ser o herdeiro perfeito do posto de avô no meu coração. Foi nesse “altar” que o coloquei.

O Tio Nito não me deixava pegar ônibus e atravessava a cidade todos os dias para me levar e buscar na faculdade. Ele se preocupava se eu tinha dinheiro, se eu estava me alimentando, se eu estava feliz com aquela nova vida. Dava carona para todos os estudantes que a gente ia encontrando no caminho. Morei na sua casa. Dele e da minha Tia Carmem. Lá tinha um cheiro parecido com a casa dos meus falecidos avós. Talvez porque meus tios já fossem avós e todas as casas, quando passam a ser habitadas por avós, adquirem cheiro de madeira antiga e de roupa sempre limpa.

Eu ficava lá e tinha saudade dos meus avós. Olhava para o meu tio, lembrava do meu avô e sabia que a história estava continuando. No fim da tarde eu caminhava com ele na praça em frente à sua casa. Íamos bem devagar, passávamos na farmácia para “medir” a pressão, na pastelaria, e aquela cidade grande (pelo menos para mim) se tornava meu novo interior. Vivi com eles os dois primeiros meses de faculdade, depois fui morar sozinho. Já não tinha tanto medo. As memórias desse tempo nunca me abandonaram.

Em abril deste ano ele fez 80 anos de idade. Mesmo com dificuldades para se locomover ele fez questão de se sentar com todos, conversar com cada um, sempre do seu jeito único. Sua presença era toda azul. Hoje os olhos azuis do Tio Nito se fecharam. Olhos que eram miúdos e não podiam conter toda a sua bondade. O meu tio mais amado. A quem sempre serei grato por tudo que fez, a mim e a tantas pessoas que ele ajudava sem fazer alarde. Meus pais sempre dizem: o Tio Nito ajudou muito a gente. E, aqui dentro, sempre repito: e ele nem imagina o quanto meu ajudou! Que Nossa Senhora o guie em todo o seu azul. Saudade.

 

 

 

 

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

2 comentários em “Tio Nito”

  1. Puxa, Fábio. Nem consigo imaginar o quanto isso é triste para você. Sinto muito. Pessoas especiais ficam para sempre nos nossos corações. Muita luz para ele.

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