A vantagem de ser metade

Às vezes a vida caminha tão depressa que a minha vontade é parar tudo. Tudo de uma só vez. E passar uma semana toda desenhando, escrevendo poesia, lendo aqueles livros que eu sempre quis e tomando café da tarde com as pessoas que sempre quero encontrar e não consigo. Ficar submerso numa semana sem compromissos e apenas com programas que nos fazem bem, em tempo integral. Uma semana para rever todos os amigos de escola, faculdade e com quem já trabalhamos um dia.

MAT_155334metade_nao_coisaTudo tão acelerado – por dentro e por fora – que já não há forma de sustentar o meio-termo. Não dá mais pra pensar em fazer uma parte, em deixar para amanhã, em cumprir apenas aquilo que podemos dar conta hoje. Parece que a vida não apenas pede tudo para ontem, mas pede “tudo”. E esse tudo que nos é sempre pedido também nos deixa a impressão de que mesmo o prazer tem que ser “todo” e “tudo” ao mesmo ao tempo. A alegria tem que ser intermitente e jorrar para fora do copo. Nada de sublinhados ou pontinhos para ligar, tudo em linha reta, traço grosso e feito para marcar. Os intervalos, as ressacas, as pausas, tudo em desuso.

Quero um dia inteiro só de poesia, e só de poesia mesmo. Ai se eu receber um e-mail de trabalho! Quero um dia todo de arte, e ai se alguém me perguntar alguma coisa sobre qualquer outro assunto. Dias imersos em tudo o que é urgente. E ser uma pessoa intensa é cada vez  mais urgente. Com isso acabamos perdendo muito…. muito do que apenas as pausas, os intervalos e os entremeios nos ensinam, como a possibilidade de mudar de rota, de ver por outra perspectiva, de trocar a pauta do dia e de substitui-la por algo mais confortável. A possibilidade de se assustar. De decidir ir embora. De decidir recomeçar. Vivemos tempos em que não dá para ser menos do que tudo. Tempo em que os “super” dão cada vez mais bilheteria. Que ser inteiro virou sinônimo de ser tudo e dar conta de tudo de uma só vez. E com isso a gente acaba desaprendendo a ser metade e não permite que a vida nos ensine o que é a completude. Inteireza é outra coisa.

 

 

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

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