As contas de e-mail deveriam ser eternas

Ontem eu estava olhando uma antiga conta de e-mail. O meu primeiro e-mail. Aquele que a gente usa um nome típico da adolescência e que depois de mais velho tem vergonha de passá-lo para outras pessoas. Então criamos um e-mail sério, com nome e sobrenome. Mas esse e-mail da vida adulta não pode apagar aquilo que fomos. Então eu tive vontade de acessar a conta quase abandonada.

Lá eu criei um monte de pastinhas com uma organização muito particular, coisa que hoje não consigo mais entender. Entre essas pastas havia uma intitulada “Guimarães Rosa”. Eu sabia do que se tratava, mas resolvi olhar cada um dos seus e-mails. E-mails especiais, pois estavam em uma pasta de envergadura. Coitado do Guimarães se pudesse ler as coisas melosas que eu escrevia há dez anos! Enfim, nesta pasta havia uma série de correspondências que troquei com algumas pessoas que foram importantes em minha vida, pessoas com quem desabafava, com quem falava de poesia, com quem me abria sem muitas ressalvas. Com o tempo a gente passa a se despir cada vez menos, talvez porque tenha medo do que irão fazer com nossas vestes, talvez porque descubramos, com o passar dos anos, que entrega é diferente de desarmar-se, que é diferente de deixar-se aberto, que é diferente de ter a capacidade de amar.

No meio desses e-mails achei um poema antigo, que eu escrevi num dia de chuva e com poucas possibilidades de fazer outra coisa fora do meu quarto. Eu ouvia a chuva do lado de fora e me inspirei:

canal

gosto de ouvir
a chuva caindo
nos vasos e nas valas.
de ver a água chovendo
pelas valetas, sarjetas e frestas.
o céu também chora
e tem nisso um álibi:
no meu caso
nem sempre há um veio
por onde a dor possa
escorrer.

As pessoas deveriam escrever mais. Deveriam ter a possibilidade de escrever, registrar pensamentos, sentimentos, depois poder reviver tudo isso com uma simples releitura, como fiz ontem. Aquela chuva parece que me habitou de novo. De repente a gente percebe que talvez não tenha mudado tanto nesses idos todos. Talvez só a forma de catalogar pastas é que tenha mudado. Ali dentro hão de ser guardados os mesmos segredos de sempre.

Mario Quinta dizia que “Quem faz um poema abre uma janela”. Talvez hoje eu já consiga abrir aquela janela do quarto e apreciar a chuva sem recorrer à observação cega através da parede. Nesse mesmo poema, Quintana conclui: “Quem faz um poema salva um afogado”. Talvez eu queira mesmo é me afogar nesse sentimento todo. Do sentimento de que só quem fez um poema na vida sabe confessar e deixar escorrer.

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

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