Sobre quem faz de tudo ao mesmo tempo

Primeiro que fazer de tudo ao mesmo tempo é uma frase que tem muitos senões. Não há tempo que dê conta, por mais que o tempo seja exatamente o construto que não conseguimos apreender de todo. Os relógios e calendários tentam, inutilmente, aprisionar o pobre. Pura safadeza. O tempo há de reinar soberano e rir-se de nós, atarefados que somos, corredores que somos, pouco reflexivos que nos tornamos. E esquecemos de adorá-lo como um deus, por isso talvez ele fosse mais benevolente com os povos antigos. Brigamos com ele e então o tempo virou um vilão, nosso inimigo. Esquecemos como se dança com o tempo. Uma pena.

Há pessoas que gostam de dividir as atividades ao longo do dia para não se entediarem ou para, pretensamente, fugirem de uma rotina que, no máximo, pode dar uma trégua de vez em quando, apenas isso. Somos rotineiros por excelência, ainda que seja apenas no modo como nos comportamos. A repetição faz com que aperfeiçoemos nossos modos de ser e daí para frente é uma rotina que nos permite ser quem somos, do jeito que somos.

Eu nunca gostei de dividir meu dia, de fragmentá-lo em mil atividades. Prefiro realizar uma a uma, meio que compulsivamente, até ver esgotadas as possibilidades dessa atividade. Fico absolutamente concentrado em cada coisa que faço e é só isso que me interessa, ainda que seja um dia apenas. Faço isso com pintura, com poesia e até com trabalho. Se o dia nasceu para poesia, vai ser poesia de cabo a rabo. Vou ler poesia, pensar em poesia, falar em poesia, ser poesia. Até enjoar de poesia. Se o dia nasceu para a pintura, vai ser pintura em cada minuto daquele dia. E então posso passar para outra atividade.

Sei que não é prudente dar-se aos exageros e às intensidades – ainda mais na sociedade dos rasos, dos efêmeros, dos instantâneos prazeres. Mas conservo em mim a necessidade de que um desejo seja cultivado, tenha começo, meio e fim, seja de corpo e alma, inteiro, de dentro e para dentro. Acho que mergulhar nesses prazeres é o que faz com que essas atividades deixem de ser meras formalidades e possam constituir, de fato, uma imersão maior, mais ampla e mais profunda naquilo que podemos produzir, naquilo que podemos transformar.

Por isso é importante embriagar-se no que tiver que ser daquele dia, ainda que sejam vãs as atividades que você tiver para realizar. A vida rasa não há de ter serventia no currículo que criamos para o viver. Por isso hoje vou escrever, sem pressa, mas intensamente e deixando o desejo ir brotando de cada palavra, como se a ação fosse mesmo a propulsora daquilo que não sabemos – nem podemos – nominar.

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

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