Inveja

Minha mãe sempre se angustia com a quantidade de horas de sono da minha cachorra. Talvez ela passe cerca de quinze, dezesseis horas diárias no mais absoluto repouso dos justos. Como dorme essa cachorra, meu Deus! Se tivesse um órgão onde reclamar, tenho certeza que minha mãe faria uma queixa contra a cachorra que dorme demais. Ou melhor, contra a cachorra que dorme mais do que ela.

É preciso lembrar que a Glacê dorme mais do que boa parte dos humanos, incluindo nessa conta aí os bebês. Ela também tem o sono pesado e desmaia em qualquer lugar. Minha mãe novamente se indigna: como consegue dormir desse jeito? Brinco sempre que só dorme bem quem não sente culpa e quem tem o coração livre dos maus sentimentos do mundo. Também eu não tenho um sono dos mais tranquilos, acordo várias vezes para ir ao banheiro, topando sempre com a minha intranquila mãe e seu sono picado por sua igualmente intranquila bexiga. Indignada, minha mãe busca respostas.

Também poderia ela tecer uma reclamação formal contra o meu pai. Apesar de dormir poucas horas, está sempre disposto a se recostar e dormir aonde for permitido. Dorme no sofá, na cadeira, sentado, deitado, escorado em qualquer superfície que ofereça o mínimo de conforto. Eu não reforço a tese do coração puro e digo à minha mãe que ele deve ser igual à Glacê. Ela então se indigna mais ainda. Quer saber onde estão os seus pecados. Quer saber o que está fazendo de errado. Quer corrigir os seus atos para um sono tranquilo. Quer medir a vida pelos méritos, fazer qualquer ajuste no seu cronograma de sonos perdidos com as preocupações diárias da vida. Sei do seu coração límpido, não duvido de suas ações.

Mas receio que meu pai e a cachorra saibam de coisas que ainda não tenhamos descoberto. Essa curiosidade ainda vai tirar nosso sono.

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

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