Evolução

Quem me conhece um pouquinho já sabe que adoro falar como se desse voz à minha cachorra. Primeiro porque acho um desperdício da espécie não poder falar certas coisas que tenho certeza que pensam.Talvez tenham aprendido na evolução que falar é apenas para os mais desesperados ou para os mais inseguros. Pois o que vale a pena ser comunicado, de fato, precisa apenas de alguns símbolos, imagens ou comportamentos. Cachorros usam seus olhos para falar e isso basta. Deveria bastar para a nossa raça também. Não basta. Achamos pouco.

chihuahuaEntão criamos um vasto léxico para dizer absolutamente tudo que, duvido, tenha tanta importância assim. Isso porque a linguagem às vezes atrapalha que as palavras essenciais sejam ditas. Então criamos outras, brincamos de proliferar sinônimos desnecessários e tudo por aí se perde em nossas ações, nos comportamentos pelos quais nos envergonhamos, no nosso poder de decidir sobre a morte do outro e de legislar sobre o que cada um escolhe para si. Ouso acreditar que usamos muito mal todo o nosso repertório.  E deixamos de fazer o que parece óbvio, primitivo, primeiro, essencial. Por isso agradeço a Deus por ter feito os cachorros sem essa nossa linguagem corrompida e demasiadamente frágil, que prepara manuais para afirmar o que se quis ou não dizer. E brigamos por isso. E discordamos por isso.

Criamos a droga da interpretação. E nos esquecendo do básico, fazemos da linguagem a confissão do nosso trabalho evolutivo capenga. Nunca observei essa deficiência nos cachorros. Os linguistas, os neurocientistas, todos estes que aí estão hão de falar mal do meu texto. Talvez porque possam falar. E falando hão de esquecer porque estamos todos aqui, brigando por qualquer coisa que se diga. Os cachorros entenderam isso há milhares de anos, provavelmente. E então se calaram.

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

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