Vamos ficar sem saber

Eis que esta semana o Brasil parou pela terceira vez em menos de um ano. Não pelas movimentações na política ou pelas oscilações econômicas, nem pela possibilidade de atentados terroristas na Rio 16. Nada disso nos fez parar. Mas uma ferramenta de comunicação foi capaz de nos travar, ainda que por uma tarde. Ontem mesmo estava lendo os depoimentos de pessoas que se sentiram “lesadas” por ficarem sem o aplicativo durante algumas horas. Falaram em prejuízos, danos, perdas irreparáveis, desrespeito. Quem queria trabalhar não conseguiu, quem queria saber de um amigo ou parente também não deu conta, quem queria trocar informações sobre uma cirurgia não pôde. Ficarei com medo se descobrir que meu médico trata do meu caso em um grupo desse aplicativo. “E aí, como eu faço a incisão agora? Mais para a direita?”.

A vida merece mais respeito, de fato. Mas o respeito não passa apenas por permitir que todos tenham acesso às possibilidades de comunicação e interatividade. Direito de se comunicar e se expressar, de ir e vir, nem que seja em áudio. De modo também gratuito há uma ferramenta ótima chamada diálogo, complementada por algo igualmente mágico chamado olho no olho. Fomos aprendendo que precisamos abreviar tudo, o tempo da ligação, o tempo do áudio gravado e até mesmo a quantidade do que se escreve.

Quando estamos face a face perdemos um pouco o controle de todas essas variáveis e daí podemos ser nós mesmos, não podemos medir reações, ensaiar respostas, ficar matutando a melhor forma de nos posicionar. Não podemos ficar controlando se o outro sabe que eu “ouvi” ou não o que ele disse. Tempos perigosos esses os de controle excessivo sobre as relações. Há mesmo quem diga que não é preciso diálogo para além do aplicativo. Não precisamos mais nos lembrar do que o outro nos diz, nos aconselha ou nos puxa a orelha. Tudo está ali registrado, inclusive com ferramenta de busca de assunto. O cidadão chega, saca o celular e mostra: você disse isso e isso. Está aqui, não restam dúvidas.

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Capitu é uma personagem de “Dom Casmurro” (1899), de Machado de Assis. 

O problema é que restam muitas dúvidas. Dúvidas essas que até mesmo os contatos face a face nos colocam. Como interpretar o olhar oblíquo e dissimulado de Capitu a partir desse aplicativo?

Não queremos nada oblíquo, nada dissimulado, queremos a verdade, apenas a verdade. E dissimulamos, assim, enganados pela nossa fantasia de controle, pelo nosso desejo de poder sobre o outro e sobre a palavra do outro. Qualquer juiz de primeira instância é capaz de suspender nossas certezas. Ainda que por uma tarde. Tenho pena de quem está rendido diante dessas circunstâncias, inclusive também tenho pena de mim. Também tenho medo de perder a capacidade de ser Capitu, se preciso for.

 

 

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

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