Óleo sobre tela

Hoje seria a minha primeira aula de pintura em tela, óleo sobre tela. Não foi. A professora, com um certo grau de tédio, disse que estava muito bagunçada para iniciar as suas atividades hoje, uma segunda-feira. Sou de começar pelo começo e não me rendi à sua negativa. Estou disponível na terça, se quiser, respondi eu. A contrapartida foi aceita pela professora – e daí pensei no quão cansada pode estar essa mulher.

Cansada de ensinar como se segura o pincel, como se misturam as tintas, como se faz uma perspectiva, um sombreado, uma iluminação. Cansada de explicar por que as naturezas mortas ainda fazem tanto sucesso. Cansada da arte e do que ela pode oferecer. Talvez ela tenha se cansado de tanta gente sem talento querendo apenas ocupar o seu tempo, como quem vai para a praça aprender a fazer crochê – ou tricô, não sei muito bem a diferença entre essas duas artes de entrelaçar fios.

Talvez tenha se cansado de fugir para a arte e tenha aprendido sozinha a enfrentar seus próprios demônios. Talvez tenha mesmo amadurecido com o tempo e não precise de nada para materializar o passar das horas além do seu próprio corpo, arte que não é de sua autoria.

Talvez não queira mais um aluno, ainda que eu me ache especial por ter tido coragem de aprender a pintar aos 32 anos, seguindo as recomendações que me deram ainda quando criança. Talvez tenha mesmo cansado de dividir sua angústia essencial com outros tantos angustiados que pensam que vão se salvar se fizerem um verso, um quadro ou cantarem uma música na missa do fim de semana. Talvez tenha desistido de ensinar o que sabe ou mesmo de requentar os ensinamentos de sempre.

Penso em como poderia ajudá-la sem ter oferecido outra possibilidade de dia para a aula. Talvez eu pudesse dizer que a arte não cabe na agenda. De que é tudo mais que isso. E de que aceito a sua bagunça interna. Também não estou bom hoje. Até pensei em ir ali e pintar uma aquarela para ver se passa.

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

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