A primeira aula com a primeira professora

Carmelinda tinha sido minha professora na antiga pré-escola, acho que se chamava “jardim da infância”, nos idos de 1988. Engraçado que me lembro de flashes importantes daquele tempo. Eu dançando “Tico-tico no fubá”, desenhando umas cachoeiras, as pinturas lindas que a “tia” Carmelinda fazia nas festas de São João. Eu olhava tudo aquilo maravilhado, queria saber desenhar como ela.

Muitos anos se passaram e hoje, 28 anos depois, me reencontrei com Carmelinda, eu novamente seu aluno, seu atento aluno, agora decidido a aprender, de fato, a pintar. Não como ela, pois isso seria um desatino da impossibilidade, mas perto dela. Ela me disse para riscar o carvão na tela sem medo. Disse para eu colocar o pincel na tinta sem medo. E me aliviou: tudo na pintura tem conserto. Acho que perdi um pouco do medo de errar, embora ainda conserve a necessidade de ser seu melhor aluno.

Pergunto, ao final da aula, se estava bom para uma primeira aula. Ela, de modo afirmativo, me compara com alguns de seus alunos com muitas dificuldades. Perto deles, de fato, eu devia ter alguma noção de traçado. Me animo com a possibilidade real de me colocar a serviço de quem deve aprender com sua mestra. Exercício que o autodidatismo, confesso, tem me prejudicado nos últimos anos.

carmelinda
Com a minha primeira professora. E também a mais recente. Com a minha primeira pintura em tela. Julho de 2016.

Então me coloco no lugar que devo, sedento por aprender o passo a passo. Mas Carmelinda, sábia professora, percebe logo o meu ritmo, e me dá a liberdade que um aluno inquieto precisa. Diz que tenho bom gosto e que sei o que quero. Não que eu saiba, mas sei exatamente o que quero deixar registrado. Por isso preciso dizer que o dia de hoje, quase São Pedro, marca o meu retorno a 1988. Mas não sou mais aquele menino deslumbrado com tudo, com medo de tudo. Hoje tenho apenas alguns medos. Hoje enfrentei mais um, o medo de ser novamente um aluno. Aprendi com gosto, aberto a tudo o que ela podia me ensinar. Ela me diz que aprendeu com a vida. Quero, então, passar duas horas semanais dividindo a minha vida com ela para ver se, enfim, aprendo as lições fundamentais. 

 

 

 

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

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