O que a gente quer?

No fundo, no fundo, mesmo que você não consiga confessar a si mesmo, lá onde se escondem seus maiores medos, também tem uma seção na qual está escrito que você não sabe viver com pouco e que quer sempre mais. Por mais que seja franciscano, tenha feito voto de pobreza, castidade, voto para nunca mais pedir nada para Deus nem para ninguém. A nossa porção desejante existe e não depende muito da nossa vontade. E ela nos escapa, ah como nos escapa, de tempos em tempos. Porque você pode até andar de sandálias o tempo todo, mas não vai ser a pior sandália, mas sim aquela que te faz bem, que você desejou, ainda que minimamente. Mas não quero falar de consumismo e de acesso a bens de consumo. O que eu digo por desejante é que todo mundo quer sempre mais, espera sempre mais, quer mais, nem que seja um pouquinho mais do que a nossa natureza permite que sejamos ou tenhamos. Você pode estar feliz, ter conquistado tudo o que precisava, mas mesmo assim quer mais. Se não fosse assim, não tentaríamos mais nada, bastaria nos contentarmos com o que temos e nos contermos para não desejar mais nada dessa vida. Mas mesmo quando não desejamos nada, ainda que aparentemente, tem desejo aí envolvido mais do que você pensa.

Você pode até viver sem amor, mas se tiver um amorzinho que seja, como uma florzinha amarela se segurando na ribanceira, você vai querer, vai gostar, e essa imagem vai inundar os seus sentidos e despertar o tal do desejo que estava aí mal avaliado ou subaproveitado. Você pode até viver sem saber se as outras pessoas gostam ou não de você, mas se um dia você receber uma declaraçãozinha que seja, ainda que tímida, um emoji de coração, vai mostrar um sorriso. Um tímido sorriso, talvez. Aquele que você só mostra a si mesmo, e que logo fecha para que não seja descoberto por quem quer te destruir, por quem quer dizer que você tem desejo, eu diria que até por você mesmo. E que você quer mais dessa vida que simplesmente responder sim ou não nas conversas superficiais que troca com quem sabe-se lá quem. Um emoji pode salvar um dia e até uma relação. Pode colocar o seu desejo para respirar um pouquinho na superfície.

Para quê essa coisa de ser sério? De ser objetivo, exato, sempre exato e sem conversa quanto a isso? De ser assim do mesmo jeito sempre? Por medo de quê? Todo mundo quer mais. Todo mundo espera sempre mais. Por isso todo mundo vive, acorda, vai procurar emprego, vai trabalhar, estudar, ver o jornal, conferir a timeline. Por isso que a gente existe. E existir sem dar ao desejo a oportunidade dele se manifestar em paz é, no mínimo, um convite para se chatear. Com tudo, com a vida, com quem te pede algo que você tem, mas diz que não quer oferecer. Porque é assim. Então está na hora de deixar esse medo de fora. De contar mais – para os outros e com os outros. De sentir a vida que vem de dentro, que brota de dentro; que, por ser vida, não pode ficar só do lado de dentro. Vida se vive é por dentro, por fora e revirando os avessos. Assim a gente costura, lava, seca, remenda, passa, reaproveita e brilha, como tem que ser. 

 

 

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

Um comentário em “O que a gente quer?”

  1. Que belo texto, amado.
    Vamos soltar as amarras e brincar, botar pra gemer, gingar pra dar e vender, como diz na música.

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