O que a gente faz com a dor?

Não sei como começar este texto sem essa pergunta para a qual não encontro resposta. Nunca encontrei. Apesar de saber da impossibilidade dessa procura, ainda assim vamos nos questionar desse modo, vez ou outra, vez ou sempre, pela menos uma vez na vida. Sim, para os que são humanos. E para quem alguma vez já soube o que era gostar de alguém, amar alguém. Aquela dor que te faz ter a sensação de desmaio, que te tira o chão, que abre um clarão no seu peito, que te faz ter vontade de morrer, de sumir, de nunca ter ouvido aquilo, de nunca ter visto aquela pessoa, aquela dor clichê que promove em todos nós sintomas bem parecidos.

O que a gente faz com essa dor? Não há fármaco capaz de curar, não há médico que dê jeito nisso, pajelança, amarração, reza, jeitinho. A dor há de imperar, gloriosa, mostrando que sabe se impor apesar de nossa fantasia de onipotência. Somos fracos para a dor. Vamos sofrer, penar, ainda que uns saibam disfarçar muito bem. Não há imunidades, blindagens, não há sequer companhia na dor. A dor é nossa, a curva da estrada é nossa, por mais que saibamos que um ou outro irá nos ajudar e tentar dividir esse peso ou amenizar essa caminhada.

A dor vence. Fica ali disposta, servente que faz hora extra, vigilante fiel, com pás nas mãos, laboriosa que só ela. Faz o seu trabalho. A gente pede, implora, reza, pede para outro caminhão nos atropelar. A dor veio, quer ser recebida. Bem recebida, de preferência. Porque cara feia não cura nada disso. Então receba a dor. A que tiver à sua porta hoje. Até onde pesquisei, a dor não costuma ser fiel às rotinas. E então a gente espera o amanhã olhando pela fresta da porta.

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

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