“Conversa de janelas batidas” – Para a minha Psico 08

“Me abraça forte agora / que é chegada a nossa hora / Vem, vamos além” (Marcelo Camelo)

Faz exatos dez anos que eu escrevi um texto dedicado aos meus amigos do curso de Psicologia. Um texto sobre a nossa formatura que estava chegando. E que chegou precisamente em fevereiro de 2007. Para falar com vocês, dez anos depois que tudo aconteceu, ouso me inspirar neste mesmo texto, que fez tanto sentido naquela época e que agora me atravessa novamente. Por causa de vocês.

“Fechar as janelas, entregar as chaves do apartamento que antes era uma república, devolver os sofás, os talheres, a geladeira, as toalhas de mesa. Dividir os quadros, os escritos na parede, os cartazes de cerveja, de festas, de mulheres nuas, as tantas recordações. Dividir fotos, dividir contas, pintar o apartamento de novo, encontrar uma velha roupa perdida no fundo da gaveta, descobrir aquele bilhetinho trocado durante a aula e que ficou jogado no meio de algum livro que não lemos… dividir caminhos.

Por cinco anos, dividimos muitas coisas, não apenas objetos, aparelhos eletrônicos e habitações. Dividimos muitos sonhos, muitas alegrias, muitas dores, infinitos momentos que agora nos vêm à mente de modo louco, nostálgico, intenso. (…) Para aqueles que vinham de outras cidades, o desafio de morar longe da família, de aprender coisas novas, de aprender com pessoas ainda desconhecidas, de conhecer tantas outras… de tentar ser independente. Para os que já moravam aqui, a segurança da família próxima e a vontade nada paradoxal de que ela estivesse longe, às vezes. Que atire a primeira pedra quem não manchou uma camiseta, queimou a comida ou quebrou alguma coisa no processo de ser adulto. Pode parecer comum, mas todos deveriam se perguntar, em algum ponto, como chegamos uns aos outros e por que é que estamos aqui hoje, tão diferentes, tão iguais, tão descobridores, depois de tanto tempo. Um motivo maior nos uniu, é verdade, ansiávamos pelo curso de Psicologia. E cá estamos, depois de cinco anos, quase psicólogos.

As mudanças estão por todos os lados, nos rostos e nos corpos de cada um. Amadurecemos, crescemos, mudamos, erramos, esquecemos. Cinco anos, para quem tem um pouco mais de vinte, é um período considerável de vida. E neste tempo tivemos muitas oportunidades de descoberta, do outro e de nós mesmos. Aqui fizemos amigos, aqui fizemos possivelmente nossos melhores e mais inusitados amigos. Amigos de toda sorte, daqueles que somem e reaparecem no último ano, daqueles que se foram antes mesmo do término, daqueles com quem dividimos porres, desilusões, vitórias e também noites em claro digitando trabalhos intermináveis, transcrevendo entrevistas imensas, preparando seminários, estudando para provas tão longas que deveriam contar como hora de estágio (risos!). Amigos com os quais dividimos as notas, o passe de ônibus, a mesa e tantas coisas pequenas-grandes-incabíveis-incalculáveis-para-sempre.

Fechar a porta é também virar uma página e ir para a próxima. Talvez a próxima esteja em branco ainda, mas tenho certeza que nossos dedos, ágeis, querem preenchê-la o quanto antes. Ao chegar à rua, um mundo novo nos espera. Agora vamos buscar outras chaves, outros endereços, outras tardes, outros tantos corações a conquistar. Parece que estamos naquela mesma rampa da matrícula, de olhos espertos, cheios de ansiedades e de temores. Mas isso diz pouco. Agora, mais do que um diploma e uma série de novos conhecimentos, somos aquelas mesmas pessoas, mas com a alma grande e com o desejo insistente de fazer deste momento o mais especial de todos. Vamos, amigos! Deixem ‘chegar o sonho, preparem uma avenida, que a gente vai passar’! E quem duvida disso?”.

nova-psico08
Parte da 8ª turma de Psicologia da Universidade Federal do Triângulo Mineiro.

Psico 08: Agradeço a vocês por esses cinco anos de convivência, de aproximações, de distanciamentos, de aprendizados, de percursos e transições ecológicas várias, sempre com uma disposição imensa de viver e de fazer dar certo. Tenho muito orgulho de vocês todos e dos excelentes profissionais de Psicologia que serão. Vocês serão a nossa eterna Psico 08 da UFTM. E, de agora em diante, a turma que vai levar o meu nome. Obrigado pela linda homenagem, pelo afeto que transborda e que não precisa ser medido, por serem o caminho que renova, ensina e que faz o nosso olho brilhar. Amo e amarei para sempre vocês!

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

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