Carlos, o primeiro mineiro que amei

Engana-se se você acha que foi o primeiro mineiro em minha vida.

Devia ter de 11 para 12 anos quando o primeiro apareceu, na biblioteca municipal. Ele me aconselhava a conviver com os poemas antes de escrevê-los, a aceitá-los em seu tempo, em sua forma, em suas sete faces secretas. Enquanto os colegas achavam que escrever que havia uma “pedra no meio do caminho” era uma poesia barata eu achava aquilo tudo muito elevado, muito grave, muito problemático de uma criança entender. E sofria com aquilo que não podia cognitivamente compreender, mas que afetivamente me consumia.

Não tinha com quem desabafar sobre aquilo. Então eu escrevia, certo de que aquele mineiro estava vivo e um dia receberia uma carta minha, que eu escreveria secretamente e só deixaria Dona Cecília, minha professora de português, revisar. Foi então que descobri que ele estava morto desde 1987. Se ao menos eu tivesse aprendido a ler e a escrever com quatro anos, talvez ainda restasse tempo. Mas não. Eu ainda o releria muitas e muitas outras vezes. Tentaria também seguir os seus sábios conselhos:

“Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio”.

biografia-2
Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira (MG) em 31/10/1902 e faleceu em 17 de agosto de 1987.

Era urgente escrever para ele e dizer que ele já tinha escrito tudo o que um dia eu poderia vir a querer escrever. Se ele já tinha feito todo o trabalho, restava-me apenas esperar o tempo passar e aprender a fazer amor. Talvez assim fosse possível escrever algo inédito. Mas ele também tinha escrito sobre os desiludidos do amor:

“Os médicos estão fazendo a autópsia
dos desiludidos que se mataram.
Que grandes corações eles possuíam.
Vísceras imensas, tripas sentimentais
e um estômago cheio de poesia”. 

Havia publicado o seu necrológio. E o meu próprio necrológio. A impossibilidade de estar com ele, de lhe servir um queijo e lhe perguntar se queria goiabada para acompanhar… essas coisas todas não tive tempo de viver ao seu lado. Queria muito que ele tivesse lido meu caderno amarelo com as poesias mais sofridas desse mundo. Eu tinha 12 anos. Queria que ele pudesse ter me dado um mísero conselho: não sofra tanto ou, se sofrer, aprenda a escrever de modo menos monotemático. Queria saber sua opinião. Queria lhe dizer que sinto nas minhas entranhas o verso “a ausência é um estar em mim”.

Queria te servir um café, Carlos. E perguntar como você se sente com os seus 114 anos de vida. Pois aqui dentro você está com uma saúde de ferro, igual aquele trem. E, por fim, como quem olha para o pai que já viveu de tudo nessa vida: “Vai dar tudo certo, não é, Carlos?”. 

 

 

 

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

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