A roça

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Penso que o menino agora só precisa escrever um livro e fazer um filho. Sua árvore já está no mundo.

Era um menino da roça. Ruivo até os sete. E para conhecer o menino que tinha sido e que ainda morava ali dentro e fazia suas estripulias de vez em quando era necessário percorrer seus sertões. Ali onde a terra racha, afunda, suja e também permite a colheita farta. Descobri coisas várias. Também revisitei o meu menino de outrora, de um registro tão antigo que já nem conseguia mais acessar. Acessei. Com o outro menino, que agora me conduzia. As duas roças. O barulho da palha pisada, a represa, a pureza de quem come fruta no pé, falar o nome de todas elas: guabiroba, jambolão, acerola, fruta do conde, jabuticaba, abacate, limão, mostrar repertórios biológicos vários. Descascar as frutas com a boca, revelar seus interiores. E depois mostrar que as mangas não são todas iguais. Descobri que gosto da do tipo “coração de boi”. Um coração que se avermelha a partir do verde.

Andei com o menino pela mata, até o vermelho da terra entrar no sapato, passar para a meia e tingir o dedão do pé. Sujar-se de terra é um exercício dos mais sublimes. A roça era roça. E ele queria fazer tantas coisas ali onde estavam as suas memórias: acampar, churrascos, festas, levar os sobrinhos para passear, aprender com a terra, ensinar com a terra nas unhas. Construir a sua casa com tijolos ecológicos. Ali vai ficar o banheiro, a sala, a cozinha, os dois quartos, vão ter três janelas desse lado. E um deque ali para baixo. Seus braços se moviam feito réguas a delimitar a planta. E o meu desejo era apenas o de mandar comprar os tijolos e levantar o sonho. Mas é preciso ir com calma. O menino chama isso de semente. Vou aprendendo in loco. Inclusive a identificar sons na mata aberta.

Peço licença para entrar na mata. Peço a bênção para a água que corre, para a cachoeira que deixa-se levar, escorrer, lavar. Rezo no cruzeiro. Tudo é simples, forte e deslumbrante. O sol apareceu. Fecho meus olhos, fechos com os meus os seus olhos. E deixo o vento vir e fazer o seu trabalho. Conheço a árvore que você plantou. E então eu entendi tudo. Tudo estava em seu lugar hoje.

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

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