A reconciliação

Uma vez li o “Toda poesia” do Ferreira Gullar e fiquei encantado. Lembrava de uns poemas dele no colégio e garimpei num sebo essa sua obra preciosa. Gostava também da figura de FG, aqueles cabelos brancos lisos, com algo que estava sempre para brotar da sua boca: sua palavra. Um homem de traços fortes e de poesia igualmente densa. Não era meu poeta favorito, mas com quem eu tinha muito o que aprender. Eu devia ter estudado mais sobre ele, tive tempo para isso. Deixei que ele passasse por mim.

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Fonte: http://www.poesiaspoemaseversos.com.br/ferreira-gullar-poemas/

Anos depois descobri que ele escrevia na Folha de São Paulo. E então tudo aquilo que construí sobre quem eu achava ser FG se desfez. Eu conversava mentalmente com FG e achava impossível que ele, que escrevera coisas de um existencialismo absurdo, podia pensar aquelas “bobagens” todas, igual um monte de gente da minha família. Não concordava com nada do que escrevera por anos em sua coluna. Absolutamente nada. Era uma questão eminentemente política a da nossa discórdia. Talvez porque eu não entendesse de política. E promovendo a generalização, dei para implicar com as suas poesias daí em diante. Esqueci dos seus versos. Um dia até cogitei de escrever sobre ele aqui. Ia criticá-lo. Quem sou eu para criticar FG? Mas eu ia. Só que não sabia da “missa a metade”, como diz minha mãe. Não sabia da história dele, de sua militância no Partido Comunista, do que o levou a pensar do modo como pensava. Resolvi não criticar, mas compreendê-lo secretamente em meu diálogo interno. Internamente a gente tinha uma relação bastante conflituosa, devo dizer.

FG partiu. Confesso que não chorei por ele, mas porque meu coração estava partido neste mesmo dia do seu desencarne. Mas ontem li uma entrevista dele concedida ao escritor Pedro Maciel, divulgada no UOL. Lá ele fala de várias coisas e muito pouco de política, nosso maior desafeto. Ele fala da poesia, da arte e do amor. Tudo o que me toca muito. Acho que o FG de “Toda poesia” me habitou de novo, de alguma forma. Baixei a guarda. Vou tomar a liberdade de reproduzir literalmente o que ele disse sobre o amor nessa entrevista:

“No meu modo de ver, o sentido da vida é o outro. E a pessoa amada é o outro mais pleno ainda. Quer dizer, é o outro com o qual você tem uma identificação profunda e que é o companheiro ou a companheira, com quem você constrói um dia a dia, ou o futuro. Então, o amor é uma coisa altamente significativa. Porque o amor também transfigura o relacionamento das pessoas. E tem outra coisa também, o entendimento e a compreensão que estão envolvidos no amor. Quer dizer, o amor não te julga. Pelo menos como eu entendo, o amor é um refrigério, é um recanto onde você é aceito sem o julgamento implacável que normalmente as pessoas fazem umas das outras“. 

Eu devia aceitar FG sem tantos julgamentos. Sem ser implacável. Devia amar quem escreve e pensa assim. Talvez ele tivesse sido apaixonado por uma comunista que o abandonara, daí sua descrença no modelo vermelho. Talvez tenha tomado a direita porque ser “gauche” na vida nem sempre é o caminho mais prazeroso. Eu nunca ia saber dos seus motivos. Não precisava de motivos.

É isso. Amor é um refrigério, é o que nos refresca desse mundo que nem sempre podemos compreender, decifrar e explicar logicamente. Nos falta linguagem para tantos paradoxos. Nos falta o que dizer. Então eu recuperei um dos meus poemas preferidos de FG, já que nos reconciliamos. E quando a gente se reconcilia de verdade ama como da primeira vez. Chama-se “Aprendizado”:

Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.

Recebo de braços abertos o sofrimento que me cabe e que me alimenta nesse instante. Recebo de bom grado também a certeza de que o refrigério ainda virá e saberei reconhecê-lo, senti-lo. A alma pedindo refresco, pedindo que nos reconciliemos também. Não preciso de mais explicações. Não quero explicar nada, nem as minhas, nem as suas explicações. Quero apenas recostar-me no seu peito e recitar FG até você pegar no sono. Reconciliados. E prontos para o refrigério.

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

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