O ano 6 (ainda em vigência)

Naquele dia começava o ano 6. Não costumava brincar com os seus solstícios e equinócios, nem com o que fazia ou que pensava nessas transições. Era importante não errar nas escolhas. Combinei de entrar no ano 6 acompanhado do desconhecido. Abraçar o desconhecido. O desconhecido tinha 1,76m, barba, cabelo ralo e um olhar que não consegui encontrar adjetivo para compor esta crônica. Olhava pelos avessos, por dentro e do lado certo. Olhava como quem quisesse saber o que era esse solstício. Era um olhar urgente, de brasa consumindo. De uma brasa que virou calmaria, que virou barco atravessando aquilo que não esperaria nunca atravessar. Era olhar desconhecido, forasteiro, que tomava assento. Fazia barulho ao morder a barba. Fazia barulho ao respirar. Fazia barulho até mesmo o sussurro inaudível. Tinha cheiro amadeirado. Gosto de quem quer apenas amanhecer com o cheiro do que ainda não tem nome. Eu ainda não tirei a blusa vermelha por cima da qual você deitou.

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

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