“A carta que não foi mandada”

viniSempre gostei do Vinícius. Acho que foi em 2006 que fui assistir um filme sobre a sua vida (dirigido por Miguel Faria Jr.), que tinha como subtítulo um de seus famosos versos: “Quem pagará o enterro e as flores se eu me morrer de amores?”. Já àquela época tratava-se de uma questão iminentemente metafísica. Ou apenas da física mesmo. E, como quase tudo em minha vida, urgente.

Na minha cabeça, questionava-me da mesma forma. A morte estava ali naquele ano. Peguei-me, muitas vezes, morto. E sem qualquer flor para adornar o sofrimento que era só meu. Passou. Passou, como muitas outras vezes. Passou por mim, deu bom dia, ordenou-me uma dezena de poemas, depois partiu, deixando partido tudo aquilo que levei anos para juntar.

Quisera eu ter um homem como Vinícius. No fundo eu sei que não daria conta de tanta “rua” naquele homem tão oralizado. Talvez nunca o atraísse, pois tenho dificuldade de chamar a atenção de quem tem tanto por viver e passa por aí simplesmente vivendo. Gosto do seu cheiro de álcool. Da sua vadiagem. Seduziu-me todo já naquela época. Um dia, porém, o achei um pouco brega, talvez influenciado por minha amiga Alice, que o taxou de piegas, certa vez. Logo ele, do mesmo signo que o nosso. Vadio como sempre quisemos ser. Entregue ao vício como tantas vezes quisemos nos dar e ficar. Não vivemos da rima a metade.

O CD de não sei quem trouxe-me um de seus poemas, narrado em sua voz. A voz do Vinícius então entrou no meu carro. Falava do amor total. Naquele dia concordei com ele, sim, o amor era total: “Amo-te como um bicho, simplesmente, / De um amor sem mistério e sem virtude / Com um desejo maciço e permanente”. Eu estava feliz nesse dia, repleto de amor, correspondido de amor. Amor correspondido não mata. E então eu não morri.

Escrevi uma carta, coloquei no envelope. É só neste envelope que está o seu endereço agora. Ando com a carta no porta-malas desde dezembro. Às vezes peço que alguém me leve junto com o carro e a carta. Que alguém roube a carta. E leve esse amor embora.

Em seu corpo, ou no que restou dele dentro de mim, esforcei-me para não perder a única coisa que você deixou. Amo-te também muito e amiúde, ainda que este soneto só faça é me atormentar ultimamente. Busco consolo na experiência humana mais comum de todas, em uma conversa entre espíritos desencarnados: fale-me a verdade, você também morreu de amor, Vinícius?

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

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