O reino aqui do lado

Quando éramos crianças, meu irmão e eu brincávamos de invenções. Ele tinha uma grande invenção (a única que atravessou mais de 30 anos…), com protótipo, justificativa social e tudo: óculos de grau para quem não tinha orelhas! O invento consistia em substituir as hastes dos óculos (perninhas, vai) por elásticos. No projeto eram elásticos semelhantes àqueles que usamos em dinheiro – acabo de me lembrar que faz tempo que não vejo um elástico deste, talvez porque não tenha dinheiro suficiente para fazer um pacotinho com notas (saudades dos anos 90 e daquela cédula de 100 cruzeiros na qual vinha estampada a Cecília Meireles – para mim valia um milhão pelo fato de ser CM!).

Um dia, não muito tempo depois dessa invenção, ele descobriu (ou mesmo se lembrou, não sei) que existiam as lentes de contato. Naquela época só havia daquelas rígidas, terríveis de usar e que se perdiam em qualquer espirro. A sua invenção já não fazia mais sentido. Mas quantas pessoas sem orelhas nós conhecíamos naquela época? Nenhuma. Talvez nunca tenhamos visto alguém sem orelhas. Lembro-me de que rimos muito do fato de que a invenção dele não serviria para nada.

Rainha-meme
Imagem retirada da coluna ATLPOP, de 2014.

As crianças costumam inventar muitas coisas. Algumas dessas crianças – as melhores – até moram dentro de suas próprias estórias. Às vezes me pego fazendo a mesma coisa, buscando a mesma rota de fuga de quando tinha seis anos e não podia dizer para ninguém por que eu sofria tanto. O fato é que ainda sofro tanto, mas agora sem os álibis fantásticos da infância. No mundo onde sou amigo da rainha também tenho o homem que eu escolhi, sem o DSM que ele tem, sem a violência que ele me impõe e sem os cacos nos quais ele me transforma a cada novo atropelamento. Ali, onde moro um pouquinho várias horas do dia, sou desejado por quem desejo, sua barba me dá arrepio e eu deixo pequenos hematomas vermelhos em sua pele igualmente branca. De vez em quando a rainha me expulsa do reino e me sentencia, sem nenhum pudor: ponha-te para fora daqui, do reino que não é teu!

E, desconhecendo a força da minha narrativa, abaixo a cabeça e atravesso para o outro lado, em que relatórios me esperam, alunos me perguntam mil coisas e eu tenho lidar com o fato de que não dá para viver de poesia – nem dentro dela. Ah, o projetista dos óculos para pessoas sem orelhas se tornou engenheiro. O relatório é pra hoje. Obrigado, minha rainha.

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

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