O coração é um músculo

Sempre achei que as minhas vivências fossem muito particulares. E, por isso mesmo, deveriam ser registradas, mas sem o compromisso de serem universais ou poderem ser generalizadas pra qualquer outro. Não teria gente sofrendo desse jeito no mundo. Acho que a tristeza de todo dia me cegou.

Hoje chorei, como de costume e por ofício, mas também porque descobri que a moça bonita, insuspeita de sofrimento, também anda a chorar. E muito. Então eu me obrigo a parar e reler o que tenho feito com essa dor alvo da minha escrita. Do alto da minha intimidade com toda sorte de angústia, resolvo pegar essa menina no colo e lhe endereçar este texto.

Não vamos saber de muita coisa, não vamos ter respostas e o máximo que poderemos é criar uma explicação que nos deixe confortáveis para continuar. Ainda que provisoriamente. Os porquês vão poder ser inventados nesta crônica de hoje. É preciso ter certeza apenas da nossa inteireza, ainda que os pedaços estejam aí espalhados. Quem ama realmente não faz a conta dos 400 km. Aparece do nada, entra pra família no meio do churrasco, faz planos, resolve a fome no mundo. Os apaixonados ganham poderes paranormais de onipresença.

Feliz de quem pode se apaixonar, de quem deixa a porta entreaberta, que recebe o que entra e acredita que dessa vez vai. Respeito quem deixa a faca entrar, quem não tem medo de se deixar escorrer, quem não fica vazio nem quando lhe tiram aparentemente toda substância. Respeito quem sente por toda a superfície e também por dentro, e do avesso. E do contrário.

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Greve geral, 15/03/2017.

Que se explodam os filósofos rasteiros que falam em reciprocidade, resiliência, sororidade e empoderamento como campanhas para uma vida mais feliz e para a ampliação da culpa de quem, apesar de saber o significado de tudo isso, não está nem aí para essas receitas. Eu quero mais é chorar e fazer aquarelas lindas com essas lágrimas. Eu quero pintar um cachorro. Quero tudo e tanto, e muito, e mais, e tanto, que nem sei.

Não tenho muito o que te dizer, pois aqui está tudo muito bagunçado teórica e epistemologicamente. Hoje é dia de greve geral, vamos colocar os afetos todos nesse mesmo barco: só por hoje não vou me apaixonar por ninguém, nem deixar que ninguém se apaixone por mim. Não vou olhar ninguém que possa cair no meu conto. Quem sabe com esse manifesto eu também possa gritar “Fora Fulano” de uma vez por todas. O que a gente quer hoje, companheira de luta?

Acabo de me lembrar do “Verão”, de Ferreira Gullar, poema vermelho, de resistência. Ferreira Gullar já foi vermelho.

Vai morrer, não quer morrer.

Se apega a tudo o que existe:

na areia, no mar, na relva,

no meu coração – resiste. 

Sei de poucas coisas. O que eu queria te dizer? Não tenha medo de amar, pequena Lygia. Coração é músculo, não osso.

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

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