A “Poesia Reunida”

adelia
3ª edição do livro Poesia Reunida, de 2016. Editora Record.

Minha história com Adélia vem de três encarnações, talvez até mais. Recordo de quando fugi do trabalho para assistir a uma de suas palestras na Feira do Livro de Ribeirão Preto-SP. Levei os dois livros que tinha à época, comprados em sebo. Levei também uma poesia que tinha escrito pra ela. Peguei autógrafo, fiz pergunta. Logo eu que jamais tenho coragem de perguntar nada, ainda mais para quem me faz tremer tanto.

Junto do poema que lhe dediquei coloquei meu endereço de email. Aguardei, sonhador, um possível retorno dela. Nunca veio. Adélia, que mora no Olimpo, perto de Divinópolis-MG, não deveria acessar email, igual terráqueos. Entendi o silêncio de Adélia. Até mudei de email. Mas continuei escrevendo pra ela. Pensando nela. Como um amante secreto. Daqueles pra vida inteira.

Ouço Adélia e me tremo todo. Leio seus poemas em voz alta. Choro. Adélia me entende, me penetra, acalanta minha tristeza de uma vida, desperta alegria igual florinha amarela. Penso em tatuar seus versos no meu corpo. Minha pele pergaminho. Quanto querer!

Compro uma máquina de escrever. Faço versos que não consigo avaliar criticamente: isso tem algum valor literário? Não me importo mais, já que Adélia não deve ter gostado mesmo do que escrevo. Sigo na escrita porque preciso.

Vou à livraria e vejo uma terceira edição de “Poesia Reunida”, em capa dura. Um luxo. Igual a palavra amor. Compro, pois quero reler todos os poemas dela, devagar, quase soletrando, sentindo. Ao final, na lista de artigos sobre sua obra, encontro meu nome na referência, meu artigo de 2013. Sobre o seu livro “A duração do dia”.

Choro igual criança. Não me importa saber se Adélia leu ou não meu poema ou o meu artigo. Meu nome está num livro dela. Artigo que escrevi não porque pesquiso, mas porque a amo – antes e de modo perene. Isso vale por tudo o que já escrevi. Choro mais. Abraço o livro. Durmo de rosto colado com Adélia.

E preparo a pele para a tatuagem que virá.

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Autor: Fabio Scorsolini-Comin

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuo como professor universitário e, nas horas vagas ou não, tenho como companheira a literatura. Este blog se destina a interessados em literatura, Psicologia, comportamento e toda sorte de assuntos que rendam uma boa conversa.

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