Vai ter Copa

Ouvi dizer que o Brasil venceu ontem, que foi 3×0, que vai ter Copa, que ainda somos o país do futebol, que o Tite salvou a seleção, que devolveu ao time a autoestima, o gosto pelo jogo, a competitividade, o futebol-arte. Que pôs ordem na casa, que soube lidar com as suas estrelas, que foi um líder, um exemplo. Que também se emocionou, que levou os torcedores igualmente às lágrimas, que é o verdadeiro “dono da porra toda” (vai falar de futebol e não quer usar palavrão?). Todo mundo quer o de sempre: um operador de milagres.

Vi isso só depois que o jogo terminou. Aliás, nem sei que horas foi essa partida. Só me lembro de ter perguntado: – Pra que time você torce? E era apenas para o Brasil. Eu disse: – Nossa, que legal, eu torço pro Egito (desde criança), mas o Brasil é o meu terceiro time, depois do Palmeiras, porque meu pai é palmeirense e tal. Ele não viu sentido algum, também não se esforçou em entender, depois sorriu, fez o que tinha que fazer. Quase esqueci da Previdência e dos golpes todos.

Parece que ontem 90% dos brasileiros foram dormir felizes, inclusive eu, que abandonei temporariamente a lista dos 10% mais tristes e desesperançosos. Não, o nome dele não era Tite, mas estava no lugar certo, bem posicionado, com a canhota certeira de quem se autointitula centroavante. Nunca escrevi centroavante antes (até vou conferir, não tem hífen mesmo). Tem gente que o chama de ponta de lança, é o cara que fica no centro da linha de ataque e que busca oportunidades de gol. Vou convocar apenas desse tipo agora. É, vai ter Copa. Na Rússia. Quem disse que ia ser fácil?

Água com açúcar

Hoje falei com uma tia minha muito querida e que vejo muito pouco. Ela ficou viúva faz mais de três anos. Era apaixonada pelo meu tio, construíram juntos uma família linda, de filhos igualmente apaixonados por eles, acho que foram mais de 40 anos de união.

Toda vez que falo com a minha tia ela me conta algo do meu tio. Fala dele sempre no presente. Ele gosta de tal comida, ele dorme em tal horário, toma água com açúcar todos os dias antes de dormir, tem medo de ir ao médico, medo de temporal, tem medo de morrer. Seus olhos brilham quando fala dele, meu saudoso tio. Minha tia segue sua vida, faz pequenos passeios com os filhos, está criando as netas. Me diz que é muito difícil ficar sem o meu tio, que só quem perdeu o marido é que pode saber. Na sequência, como que para se reparar, fala que perder um filho deve ser terrível também. Mas que a falta do marido é enorme.

Não sinto pena dela, nem compaixão, pois esses são sentimentos muito ralos diante do amor que ela narra no presente. Ela me conta tudo sobre o dia da morte dele, cada detalhe. Conta que ele bebeu água com açúcar quando começou o temporal. E o infarto o levou sem dor. Conta de quando o conheceu, das paqueras na praça, quando cantavam o hino nacional. Teve o noivado, o casamento. Hoje em dia tudo isso se perdeu, pontua.

Entendo minha tia. Também sinto muito. Não consigo cognitivamente oferecer uma explicação à altura de todos os anos que estudei sobre o assunto. Também sinto coisas no presente, como se nada tivesse passado, o corpo ainda vivo. – Vamos jantar terça-feira? Não, não mais. não há quem responda. 

Minha tia repete a história de sempre porque sempre há de doer. Há coisas que não hão de passar. Mas hoje também vou tomar uma água com açúcar antes de dormir.

Nem percebi o outono chegar dessa vez

tumblr_static_tumblr_static__640Acordo, vou caminhar e sou surpreendido pelo anúncio de que hoje começou o outono. Eu estava caminhando quando o outono chegava, sete e pouco, mas nem senti.

Ainda procuro saber onde eu estava durante a primavera e o verão. Já se foram duas estações, seis meses, metade de um ano, cinquenta por cento do meu ano número 6. Penso em La La Land e não queria ser clichê com esta crônica sobre estações. Como falar da minha dor querendo escrever sobre a flor?

Vivi um verão tão úmido, tão chuvoso, tão derramado em lágrimas. Abri as comportas como quem abre o coração a um novo amor que geralmente chega em tempos de primavera. Meu verão chuvoso, enlameando tudo o que vinha pela frente.

Surpreso ainda estou com o outono que chega. Receio não ter mais folhas para deixar cair. Receio que nada mais possa despencar do meu corpo.

Percorro as jabuticabeiras da praça da bandeira e vejo as pequenas e bem verdinhas. Penso que dali vão brotar flores brancas. Acompanho essas árvores como um sinal de que não estou sozinho nas minhas ecdises. Choro com a jabuticabeira que me pergunta: será que você mudou, Fabio? E me corrijo: há sempre o que cair de nós. Porque também há sempre o que florir.

Nunca fui dado ao outono, mesmo sendo outono todo dia. Em algum programa matinal ouço mais um clichê, algo como que o outono não é uma estação da natureza, mas da alma. Surpreendo-me com quase tudo hoje. Deixo mais uma folha cair, sinto saudade do de sempre, um princípio de lágrima brota, tudo no mesmo lugar, em mim, estação que passa. Essa alma há de florescer no tempo certo. Então espero. É outono, estou em tempo.

O coração é um músculo

Sempre achei que as minhas vivências fossem muito particulares. E, por isso mesmo, deveriam ser registradas, mas sem o compromisso de serem universais ou poderem ser generalizadas pra qualquer outro. Não teria gente sofrendo desse jeito no mundo. Acho que a tristeza de todo dia me cegou.

Hoje chorei, como de costume e por ofício, mas também porque descobri que a moça bonita, insuspeita de sofrimento, também anda a chorar. E muito. Então eu me obrigo a parar e reler o que tenho feito com essa dor alvo da minha escrita. Do alto da minha intimidade com toda sorte de angústia, resolvo pegar essa menina no colo e lhe endereçar este texto.

Não vamos saber de muita coisa, não vamos ter respostas e o máximo que poderemos é criar uma explicação que nos deixe confortáveis para continuar. Ainda que provisoriamente. Os porquês vão poder ser inventados nesta crônica de hoje. É preciso ter certeza apenas da nossa inteireza, ainda que os pedaços estejam aí espalhados. Quem ama realmente não faz a conta dos 400 km. Aparece do nada, entra pra família no meio do churrasco, faz planos, resolve a fome no mundo. Os apaixonados ganham poderes paranormais de onipresença.

Feliz de quem pode se apaixonar, de quem deixa a porta entreaberta, que recebe o que entra e acredita que dessa vez vai. Respeito quem deixa a faca entrar, quem não tem medo de se deixar escorrer, quem não fica vazio nem quando lhe tiram aparentemente toda substância. Respeito quem sente por toda a superfície e também por dentro, e do avesso. E do contrário.

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Greve geral, 15/03/2017.

Que se explodam os filósofos rasteiros que falam em reciprocidade, resiliência, sororidade e empoderamento como campanhas para uma vida mais feliz e para a ampliação da culpa de quem, apesar de saber o significado de tudo isso, não está nem aí para essas receitas. Eu quero mais é chorar e fazer aquarelas lindas com essas lágrimas. Eu quero pintar um cachorro. Quero tudo e tanto, e muito, e mais, e tanto, que nem sei.

Não tenho muito o que te dizer, pois aqui está tudo muito bagunçado teórica e epistemologicamente. Hoje é dia de greve geral, vamos colocar os afetos todos nesse mesmo barco: só por hoje não vou me apaixonar por ninguém, nem deixar que ninguém se apaixone por mim. Não vou olhar ninguém que possa cair no meu conto. Quem sabe com esse manifesto eu também possa gritar “Fora Fulano” de uma vez por todas. O que a gente quer hoje, companheira de luta?

Acabo de me lembrar do “Verão”, de Ferreira Gullar, poema vermelho, de resistência. Ferreira Gullar já foi vermelho.

Vai morrer, não quer morrer.

Se apega a tudo o que existe:

na areia, no mar, na relva,

no meu coração – resiste. 

Sei de poucas coisas. O que eu queria te dizer? Não tenha medo de amar, pequena Lygia. Coração é músculo, não osso.

O conselho da bailarina

Às vezes me pergunto quando começou essa tristeza toda. Sou capaz de dar, em 11 caracteres, dia, mês, ano e nome. Mas isso só diz de quem me tornei.
Fui uma criança triste. Que chorava antes de dormir, enxugando-se no algodão do travesseiro. Eu tinha todos os motivos do mundo. Quando não tinha, eu os inventava.
De manhã eu ia à biblioteca. Pegava o livro que tinha que ler para a ficha de leitura e outro de poesia. Nunca pediam para ler poesia, então eu lia por ser do contra. E porque, no fundo, ler poesia me fazia chorar. Como ainda faz. Tiro e queda.
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Thaysa Brinck e Jonathã Martins. Foto retirada do site  do Jornal da Manhã, de Uberaba-MG, de 09/12/2011.

Outros artistas entendem e aceitam esse meu estado inalterado, permanente no que não tem solução. A minha amiga bailarina que não me abandona diagnostica direitinho: “poeta tem uma melancolia impregnada”.

Tenho melhorado a cada dia, embora chore sempre. Deito no travesseiro e é como se nunca tivesse crescido. Molho tudo. As defesas, as mesmas.
A bailarina continua: “Um dia vai ter que escolher entre ser feliz ou ser poeta”. Tenho um insight. Na quarta série, quando me perguntaram o que eu seria quando crescesse, não tive dúvidas: poeta. Isso, por si só, não explica. Mas conforta.
Durmo feito o gordinho que vai acordar cedo amanhã para poder ser o primeiro a escolher o livro na biblioteca. Ai, essa alegria!

O reino aqui do lado

Quando éramos crianças, meu irmão e eu brincávamos de invenções. Ele tinha uma grande invenção (a única que atravessou mais de 30 anos…), com protótipo, justificativa social e tudo: óculos de grau para quem não tinha orelhas! O invento consistia em substituir as hastes dos óculos (perninhas, vai) por elásticos. No projeto eram elásticos semelhantes àqueles que usamos em dinheiro – acabo de me lembrar que faz tempo que não vejo um elástico deste, talvez porque não tenha dinheiro suficiente para fazer um pacotinho com notas (saudades dos anos 90 e daquela cédula de 100 cruzeiros na qual vinha estampada a Cecília Meireles – para mim valia um milhão pelo fato de ser CM!).

Um dia, não muito tempo depois dessa invenção, ele descobriu (ou mesmo se lembrou, não sei) que existiam as lentes de contato. Naquela época só havia daquelas rígidas, terríveis de usar e que se perdiam em qualquer espirro. A sua invenção já não fazia mais sentido. Mas quantas pessoas sem orelhas nós conhecíamos naquela época? Nenhuma. Talvez nunca tenhamos visto alguém sem orelhas. Lembro-me de que rimos muito do fato de que a invenção dele não serviria para nada.

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Imagem retirada da coluna ATLPOP, de 2014.

As crianças costumam inventar muitas coisas. Algumas dessas crianças – as melhores – até moram dentro de suas próprias estórias. Às vezes me pego fazendo a mesma coisa, buscando a mesma rota de fuga de quando tinha seis anos e não podia dizer para ninguém por que eu sofria tanto. O fato é que ainda sofro tanto, mas agora sem os álibis fantásticos da infância. No mundo onde sou amigo da rainha também tenho o homem que eu escolhi, sem o DSM que ele tem, sem a violência que ele me impõe e sem os cacos nos quais ele me transforma a cada novo atropelamento. Ali, onde moro um pouquinho várias horas do dia, sou desejado por quem desejo, sua barba me dá arrepio e eu deixo pequenos hematomas vermelhos em sua pele igualmente branca. De vez em quando a rainha me expulsa do reino e me sentencia, sem nenhum pudor: ponha-te para fora daqui, do reino que não é teu!

E, desconhecendo a força da minha narrativa, abaixo a cabeça e atravesso para o outro lado, em que relatórios me esperam, alunos me perguntam mil coisas e eu tenho lidar com o fato de que não dá para viver de poesia – nem dentro dela. Ah, o projetista dos óculos para pessoas sem orelhas se tornou engenheiro. O relatório é pra hoje. Obrigado, minha rainha.

Beija eu

Saio com o som ligado no último, 32. Não é nada perto do que se ouve nas festas de aparelhagem por aí. Pareço protestar contra o mundo como quem grita palavras de ordem das mais afetivas: beija eu! Paro no semáforo. Está bem naquela parte, lindamente regravada pelo Silva:

Molha eu
Seca eu
Deixa que eu seja o céu
E receba
O que seja seu
Anoiteça e amanheça eu

Um homem negro e de camisa vermelha atravessa pela faixa. Sou rápido nas associações: “exu”, “rua”, “noite”, “encruzilhada”, “riso”, “abertura de caminhos”, “vai trazer a pessoa amada em sete dias”. Não podia ser só um homem. Olha em minha direção. O carro vermelho. Ele grita, olho no olho: “está apaixonado, hein?”. Eu coloco a cabeça para fora da janela e igualmente grito: “pior que não não! Bem que eu gostaria, viu?”.

Dou risada do micro-conto de sábado à noite. Por que eu menti para o moço? Talvez eu tenha vergonha não de estar apaixonado, mas por quem. Hoje já avistei uns três sósias seus. Retornei na esquina, não era você. Quem me dera ser filho do rei louco: cortem as cabeças de todos os barbudos de bonés que habitam este reino!

Sigo no verde e mentalmente peço perdão ao homem que enganei hoje. Exu não há de se zangar com a minha traquinagem. Dava pra ouvir/adivinhar/diagnosticar de longe. Vermelho.