Uma canção para o Quitinho

fio.jpgComo tenho desejo e capacidade cognitiva, jogo no Google “como ler partituras” e encontro diversos métodos. Um, inclusive, promete ensinar a ler na velocidade da luz. Leio, sigo os passos. São oito passos, num dos sites pelo qual me aventuro. Talvez eu tenha digitado “como aprender grego” no campo de busca. Não, era partitura mesmo.

Tento abstrair, talvez seja uma questão de respirar fundo, de substituir aqueles pontinhos pelos pássaros nos cabos de energia. Não dá. Os fios não formam um pentagrama. O poste não está em formato de clave de sol.  Tento a clave de fá, usada por instrumentos mais graves, incluindo a mão esquerda do piano. Repito o que escrevi outro dia: grave é esse meu sentimento. Minha clave encrespa já na primeira tentativa.

Continuo lendo o manual para “leigos”: “aprenda a respeito do tempo”. Então eu me deparo com a minha primeira proximidade com algo realmente inteligível. Entendo o tempo, a métrica, o pulso, a batida. Essa parte parece mais com poesia, meu campo minado e habitável quando estou apaixonado. As métricas simples e facilmente identificáveis não me interessam. Pulo vários passos. Depois aprendo a solfejar. Este é um verbo que nunca escrevi antes. Procuro sua conjugação, no meu terreno mais seguro e no qual posso por o pé no chão. Leio mais alguns passos, vejo que já ouvi falar em bemóis e sustenidos, mas isso no livro “Metal rosicler”, da Cecília Meireles. Tento ler. Não consigo.

Agora vou mudar de assunto, já que não aprendi muita coisa. A verdade é sempre preferível à mentira. Os meus sobrinhos não foram devidamente informados sobre o destino do passarinho que eles tinham, na verdade, um periquitinho azul. Num domingo de sol, igual esse da foto, o periquitinho igualmente azul subiu pela tela da piscina, alcançou a hera, a cascata, tomou a grade que fica na divisa com o terreno do vizinho. Meu pai me chamou: – Corre, vem ver onde o Quitinho subiu! Corri. Ele estava lindo ali em cima. Tive medo que ele caísse. Esquecera-me do óbvio: ele tinha asas. Meu pai tentou resgatá-lo. Antes de pegar qualquer ferramenta de resgate (vulgo peneira de limpar piscina), o Quitinho partiu. Ganhou o mundo, voando pelo lado sul. Ainda corremos à sua caça. Estaria ele machucado? Teria caído? Teria sido atropelado? Seria devorado por uma ave maior? Não voltaria nunca mais? Seu azul seria camuflado na floresta logo ali?

Depois de passado o susto da fuga, meus pais inventaram a história da morte do bicho. Meus sobrinhos acreditaram no relato dos avós. Avós também mentiam. E eu, sem coragem de revelar a verdade e não querendo contraria a minha linhagem, guardei tudo esse tempo todo. Queria eu também ser igual ao Quitinho.

Nunca vou aprender a ler partituras, mas voaria 332 km por causa do desejo.

Nunca vou me esquecer da alegria do Quitinho voando pela primeira vez. Essa é a verdade.

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Bilac e o fagote

Fico excitado com a ideia de que toques para mim, qualquer que seja o instrumento, órgão, violino, piano, até flauta doce. Esse será o meu ponto de corte. Se tocares direi sim. Se não tocares a vida vai seguir. Como sempre seguiu.

Aguardo ansioso pelo áudio, ainda que saiba que essas coisas que eu gosto, antigas, não combinam muito com as novas tecnologias. Melhor seria estar na rede, em balanço, como quem não conta minuto a minuto a ausência de qualquer resposta. Ou num auditório com a acústica perfeita, absorto de uma tal forma que o tempo seja um senhor a ser reverenciado. Faríamos, então, a sua audição. Os meus ouvidos virgens desse sentimento todo abrir-se-iam ao que tens a me dizer. Recorro rapidamente a Bilac, que não me deixa enlouquecer sozinho: “Ora (direis) ouvir estrelas”.

Respiro profundamente imaginando que tu possas tocar um fagote, o mais grave instrumento de madeira da família dos sopros.

Grave mesmo é esse meu coração que faz poesia com sopro.

Aprender de uma vez por todas

Minha mãe achava casamento
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é ter um segundo encontro.
Aquele dia de noite, nós dois no carro,
você matando aula,
eu matando a vontade
e provando que podia te segurar no colo,
ela me mandou mensagem de voz:
“Coitado, até essa hora escrevendo artigo”.
Comprou-me um livro novo, arrumou o meu armário,
ficou imaginando como seria se eu tivesse um anel no dedo
e um casal de filhos.
Vamos devagar com o andor, mãe:
ele ainda não me falou em namoro,
essa palavra de luxo.

A “Poesia Reunida”

adelia
3ª edição do livro Poesia Reunida, de 2016. Editora Record.

Minha história com Adélia vem de três encarnações, talvez até mais. Recordo de quando fugi do trabalho para assistir a uma de suas palestras na Feira do Livro de Ribeirão Preto-SP. Levei os dois livros que tinha à época, comprados em sebo. Levei também uma poesia que tinha escrito pra ela. Peguei autógrafo, fiz pergunta. Logo eu que jamais tenho coragem de perguntar nada, ainda mais para quem me faz tremer tanto.

Junto do poema que lhe dediquei coloquei meu endereço de email. Aguardei, sonhador, um possível retorno dela. Nunca veio. Adélia, que mora no Olimpo, perto de Divinópolis-MG, não deveria acessar email, igual terráqueos. Entendi o silêncio de Adélia. Até mudei de email. Mas continuei escrevendo pra ela. Pensando nela. Como um amante secreto. Daqueles pra vida inteira.

Ouço Adélia e me tremo todo. Leio seus poemas em voz alta. Choro. Adélia me entende, me penetra, acalanta minha tristeza de uma vida, desperta alegria igual florinha amarela. Penso em tatuar seus versos no meu corpo. Minha pele pergaminho. Quanto querer!

Compro uma máquina de escrever. Faço versos que não consigo avaliar criticamente: isso tem algum valor literário? Não me importo mais, já que Adélia não deve ter gostado mesmo do que escrevo. Sigo na escrita porque preciso.

Vou à livraria e vejo uma terceira edição de “Poesia Reunida”, em capa dura. Um luxo. Igual a palavra amor. Compro, pois quero reler todos os poemas dela, devagar, quase soletrando, sentindo. Ao final, na lista de artigos sobre sua obra, encontro meu nome na referência, meu artigo de 2013. Sobre o seu livro “A duração do dia”.

Choro igual criança. Não me importa saber se Adélia leu ou não meu poema ou o meu artigo. Meu nome está num livro dela. Artigo que escrevi não porque pesquiso, mas porque a amo – antes e de modo perene. Isso vale por tudo o que já escrevi. Choro mais. Abraço o livro. Durmo de rosto colado com Adélia.

E preparo a pele para a tatuagem que virá.

Vai ter Copa

Ouvi dizer que o Brasil venceu ontem, que foi 3×0, que vai ter Copa, que ainda somos o país do futebol, que o Tite salvou a seleção, que devolveu ao time a autoestima, o gosto pelo jogo, a competitividade, o futebol-arte. Que pôs ordem na casa, que soube lidar com as suas estrelas, que foi um líder, um exemplo. Que também se emocionou, que levou os torcedores igualmente às lágrimas, que é o verdadeiro “dono da porra toda” (vai falar de futebol e não quer usar palavrão?). Todo mundo quer o de sempre: um operador de milagres.

Vi isso só depois que o jogo terminou. Aliás, nem sei que horas foi essa partida. Só me lembro de ter perguntado: – Pra que time você torce? E era apenas para o Brasil. Eu disse: – Nossa, que legal, eu torço pro Egito (desde criança), mas o Brasil é o meu terceiro time, depois do Palmeiras, porque meu pai é palmeirense e tal. Ele não viu sentido algum, também não se esforçou em entender, depois sorriu, fez o que tinha que fazer. Quase esqueci da Previdência e dos golpes todos.

Parece que ontem 90% dos brasileiros foram dormir felizes, inclusive eu, que abandonei temporariamente a lista dos 10% mais tristes e desesperançosos. Não, o nome dele não era Tite, mas estava no lugar certo, bem posicionado, com a canhota certeira de quem se autointitula centroavante. Nunca escrevi centroavante antes (até vou conferir, não tem hífen mesmo). Tem gente que o chama de ponta de lança, é o cara que fica no centro da linha de ataque e que busca oportunidades de gol. Vou convocar apenas desse tipo agora. É, vai ter Copa. Na Rússia. Quem disse que ia ser fácil?

Água com açúcar

Hoje falei com uma tia minha muito querida e que vejo muito pouco. Ela ficou viúva faz mais de três anos. Era apaixonada pelo meu tio, construíram juntos uma família linda, de filhos igualmente apaixonados por eles, acho que foram mais de 40 anos de união.

Toda vez que falo com a minha tia ela me conta algo do meu tio. Fala dele sempre no presente. Ele gosta de tal comida, ele dorme em tal horário, toma água com açúcar todos os dias antes de dormir, tem medo de ir ao médico, medo de temporal, tem medo de morrer. Seus olhos brilham quando fala dele, meu saudoso tio. Minha tia segue sua vida, faz pequenos passeios com os filhos, está criando as netas. Me diz que é muito difícil ficar sem o meu tio, que só quem perdeu o marido é que pode saber. Na sequência, como que para se reparar, fala que perder um filho deve ser terrível também. Mas que a falta do marido é enorme.

Não sinto pena dela, nem compaixão, pois esses são sentimentos muito ralos diante do amor que ela narra no presente. Ela me conta tudo sobre o dia da morte dele, cada detalhe. Conta que ele bebeu água com açúcar quando começou o temporal. E o infarto o levou sem dor. Conta de quando o conheceu, das paqueras na praça, quando cantavam o hino nacional. Teve o noivado, o casamento. Hoje em dia tudo isso se perdeu, pontua.

Entendo minha tia. Também sinto muito. Não consigo cognitivamente oferecer uma explicação à altura de todos os anos que estudei sobre o assunto. Também sinto coisas no presente, como se nada tivesse passado, o corpo ainda vivo. – Vamos jantar terça-feira? Não, não mais. não há quem responda. 

Minha tia repete a história de sempre porque sempre há de doer. Há coisas que não hão de passar. Mas hoje também vou tomar uma água com açúcar antes de dormir.

Nem percebi o outono chegar dessa vez

tumblr_static_tumblr_static__640Acordo, vou caminhar e sou surpreendido pelo anúncio de que hoje começou o outono. Eu estava caminhando quando o outono chegava, sete e pouco, mas nem senti.

Ainda procuro saber onde eu estava durante a primavera e o verão. Já se foram duas estações, seis meses, metade de um ano, cinquenta por cento do meu ano número 6. Penso em La La Land e não queria ser clichê com esta crônica sobre estações. Como falar da minha dor querendo escrever sobre a flor?

Vivi um verão tão úmido, tão chuvoso, tão derramado em lágrimas. Abri as comportas como quem abre o coração a um novo amor que geralmente chega em tempos de primavera. Meu verão chuvoso, enlameando tudo o que vinha pela frente.

Surpreso ainda estou com o outono que chega. Receio não ter mais folhas para deixar cair. Receio que nada mais possa despencar do meu corpo.

Percorro as jabuticabeiras da praça da bandeira e vejo as pequenas e bem verdinhas. Penso que dali vão brotar flores brancas. Acompanho essas árvores como um sinal de que não estou sozinho nas minhas ecdises. Choro com a jabuticabeira que me pergunta: será que você mudou, Fabio? E me corrijo: há sempre o que cair de nós. Porque também há sempre o que florir.

Nunca fui dado ao outono, mesmo sendo outono todo dia. Em algum programa matinal ouço mais um clichê, algo como que o outono não é uma estação da natureza, mas da alma. Surpreendo-me com quase tudo hoje. Deixo mais uma folha cair, sinto saudade do de sempre, um princípio de lágrima brota, tudo no mesmo lugar, em mim, estação que passa. Essa alma há de florescer no tempo certo. Então espero. É outono, estou em tempo.